Engenheiras especialistas no tema apontam premência de medidas que preparem as cidades para enfrentar efeitos da crise climática em curso, assim como importância de seguir buscando medidas de mitigação e alternativas ao modelo de desenvolvimento que trouxe a humanidade ao impasse atual.
Rita Casaro
A temperatura média do planeta já aumentou cerca de 1,1 °C em relação ao período pré-industrial, segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC). O dado, que sintetiza décadas de observações científicas, traduz um fenômeno que se manifesta cada vez mais no cotidiano das populações: a intensificação de eventos extremos, como secas prolongadas, enchentes, ondas de calor e tempestades mais intensas. Os episódios, que muitas vezes se traduzem em crise humanitária, têm sido cada vez mais frequentes, inclusive no Brasil.
Tragédia anunciada em Juiz de Fora (MG), onde morreram 59 pessoas após fortes chuvas e deslizamentos na área de encosta. Foto: Tania Rego/Agência Brasil
A mais recente tragédia atingiu a Zona da Mata no mês passado, quando as fortes chuvas deixaram 65 mortos, sendo 59 em Juiz de Fora e seis em Ubá. Contabilizam-se ainda mais de 8 mil desabrigados e perdas incontáveis. Conforme informado pelas autoridades, o drama foi resultado de uma confluência de fatores, que incluem a elevada precipitação em fevereiro, mas também a população vivendo em áreas de risco sujeitas a deslizamentos. Diante desse cenário, especialistas apontam que o desafio contemporâneo envolve duas frentes simultâneas: reduzir as emissões de gases de efeito estufa, mas sobretudo adaptar sociedades e infraestruturas aos impactos que já estão em curso.
A engenheira mecânica Suzana Kahn (foto esq/ acervo pessoal), diretora do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ) e integrante dos relatórios do IPCC desde 2007 – ano em que a instituição recebeu o Nobel da Paz –, explica que a essa altura a reversão do aquecimento global no curto prazo é praticamente impossível. Isso ocorre porque os gases de efeito estufa já acumulados na atmosfera permanecem por décadas ou séculos influenciando o sistema climático.
Segundo Kahn, ainda existem estudos e hipóteses sobre tecnologias capazes de retirar carbono da atmosfera ou interferir no clima – área conhecida como geoengenharia –, mas essas alternativas ainda são caras e cercadas de incertezas.
Por isso, ressalta ela, ganha importância um segundo caminho: “O essencial é trabalhar não apenas na redução das emissões, mas também na adaptação, porque a temperatura já aumentou.”
A pesquisadora chama ainda a atenção para um argumento frequentemente usado por correntes negacionistas: a ideia de que eventos climáticos sempre existiram na história do planeta.
De fato, fenômenos extremos ocorreram em diferentes períodos geológicos. A diferença, explica Kahn, é a escala atual do problema. O mundo contemporâneo possui populações muito maiores e ocupando territórios vulneráveis. “Há séculos, quando acontecia um evento climático extremo, o impacto era menor porque não havia tanta gente vivendo nessas regiões”, observa.
Além disso, a própria organização política do mundo torna mais complexas as respostas. A pesquisadora cita o exemplo de países densamente povoados e vulneráveis à elevação do nível do mar, como Bangladesh. “Hoje não há mais espaço para migrações espontâneas como ocorria no passado. Existem fronteiras, tensões geopolíticas.”
Transição energética
A transição energética, acrescenta Kahn, apontada como uma urgência para a redução das emissões de poluentes, também enfrenta obstáculos estruturais, tendo em vista a dependência do petróleo, apesar das alternativas existentes. “É muito difícil imaginar uma economia global se afastando rapidamente da matéria-prima que sustentou todo o desenvolvimento econômico mundial”, afirma.
Ainda assim, a professora avalia que o Brasil tem potencial para exercer maior protagonismo na questão. “Há disponibilidade de etanol em todo o território nacional. Isso realmente merece destaque. Poderíamos ter um papel muito maior, não apenas do biocombustível, mas também de biomateriais, que é uma fonte realmente muito valiosa para a economia.” Considerando o cenário, aponta, o País poderia ser “uma potência nessa área da bioeconomia”.
Ela vislumbra ainda medidas visando a mitigação a serem encampadas pela Petrobras, petroleira nacional sob controle público. “Buscar eficiência também é interessante porque, a cada barril de petróleo, você tem uma emissão associada.” Na sua avaliação, a tendência é que não só o uso de derivados, mas a diminuição do conteúdo de carbono associado à cadeia produtiva do setor sejam cada vez mais valorizados.
Avanços e limites da COP30
A magnitude do desafio de caminhar para o banimento do uso de combustíveis fósseis se evidenciou na 30ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), realizada em Belém (PA), no ano passado. Os documentos oficiais não trouxeram compromissos quanto a isso, permanecendo uma ameaça à meta de manter o aumento médio da temperatura em 1,5 °C em relação ao período pré-industrial.
Também não foi contemplado o “mapa do caminho” que havia sido proposto pelo governo brasileiro para combater o desmatamento, outro objetivo crucial nessa batalha.
Apesar das insuficiências, a engenheira química Jussara Carvalho (foto dir./Acervo pessoal), coordenadora da Câmara Temática Nacional de Adaptação e Infraestrutura Verde do Fórum Brasileiro de Mudança do Clima, avaliou positivamente a edição brasileira da conferência. “Uma COP é anual e funciona como instrumento de mobilização das nações. Não é algo que se resolve de uma vez”, explica.
Ela destaca avanços importantes, como a definição de indicadores globais de adaptação climática, tema que vinha sendo discutido há anos nas negociações internacionais. “Quando falamos de mitigação, o indicador é relativamente simples: toneladas de gás carbônico lançadas na atmosfera. Já a adaptação envolve muitas variáveis”, explana.
Essas incluem fatores sociais, territoriais e urbanos. Cidades com ocupações em encostas, falta de infraestrutura e vulnerabilidade social exigem respostas diferentes das regiões mais ricas ou com planejamento urbano consolidado.
A engenheira cita como exemplo os impactos das enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024. “Ali tivemos uma dimensão real do que são eventos imprevistos. Em algumas regiões, o solo foi totalmente carregado e pode levar anos para recuperar as condições de produção.”
Para Carvalho, a mudança climática tende a acelerar problemas históricos do País, como precariedade urbana, falta de saneamento e ocupação de áreas de risco. Ao mesmo tempo, pode representar uma oportunidade para enfrentar essas questões estruturais. “A mudança climática acelera processos que já existiam. Se um deslizamento acontecia a cada 70 anos, agora pode acontecer todo ano. Isso mostra a nossa situação real.”
Entre as iniciativas governamentais para planejar e executar ações necessárias, informa, está o Plano Clima, dividido em mitigação e adaptação, ambos com planos setoriais, elaborados com ampla participação popular, submetidos a consulta pública e divulgados no início deste ano. “É um esforço hercúleo que eu acompanho representando o Fórum Brasileiro de Mudança Climática. Não é perfeito, mas hoje temos planos prontos, políticas, um conselho federativo de mudanças climáticas, estrutura de governança com participação da sociedade civil. E agora entramos na fase de implementação”, relata.
Existe ainda, informa Carvalho, o programa “Adapta Cidades”, que envolve os três níveis de governo, para que os municípios elaborem seus planos de adaptação climática.
O fundamental, aponta, é compreender que são medidas urgentes e inadiáveis. “Isso é baseado em ciência e a cada relatório do IPCC, os resultados são cada vez mais acurados”, enfatiza. Se há mais de 30 anos, quando foi realizada a Eco 92, no Rio de Janeiro, havia dúvidas quanto à responsabilidade do ser humano nessas mudanças, hoje não existem mais. “É o modelo de desenvolvimento que escolhemos”, resume.
Saberes tradicionais
Essa é exatamente a questão colocada em cheque pela engenheira agrônoma e pesquisadora Franciléia Paula de Castro, a Fran Paula (foto esq/acervo pessoal). Quilombola do pantanal mato-grossense, ela estuda e defende mudanças numa área crucial da economia brasileira, a partir da agricultura ancestral, baseada em práticas agrícolas desenvolvidas por povos indígenas, quilombolas e outras comunidades tradicionais.
“É falar da importância desses povos, dessa cultura e dessas práticas de manejo agrícola, que são heranças centenárias e nos ensinam muito sobre equilíbrio climático e conservação da biodiversidade”, explica a doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).
Segundo Fran Paula, esses sistemas agrícolas se caracterizam por grande diversidade produtiva, baixo uso de insumos químicos e forte integração com os ecossistemas locais. “São práticas desenvolvidas há mais de 100 ou 200 anos em alguns territórios. Isso demonstra sua sustentabilidade.”
Porém, para que essas alternativas possam prosperar, alerta, são necessárias políticas públicas que reconheçam e fortaleçam os territórios tradicionais, incluindo regularização fundiária, apoio técnico e incentivo à pesquisa. “Reconhecer a agricultura ancestral também é reconhecer esses povos e seus direitos. Esses conhecimentos trazem caminhos importantes para enfrentar a crise climática com justiça social.”
Para Fran Paula, tais saberes tradicionais poderiam servir de guia à mudança do sistema agrícola em larga escala adotado no País, baseado na expansão de áreas para monoculturas voltada à exportação de commodities. “Hoje a agropecuária é um dos setores que mais emitem CO₂ na atmosfera”, afirma. Segundo ela, esse padrão produtivo está associado à perda de biodiversidade e ao uso massivo de agrotóxicos, fatores que contribuem para agravar o desequilíbrio climático. “Fazer agricultura em larga escala no Brasil exige abertura de novas áreas e muito desmatamento, o que reduz a capacidade de captura de carbono pelas florestas.”
E completa: “É para evitar tais impactos que a gente vem propondo soluções construídas em pilares de sustentabilidade, de valorização da agricultura familiar, agroecológica, de comunidades tradicionais, com sistemas justos e saudáveis.”

