Comunidade científica defende que candidatos se comprometam com políticas para a soberania digital, informacional e de tecnologias em saúde
A soberania digital é um dos temas mais presentes nos planos de governo dos candidatos à presidência da República. A quantidade de promessas acerca do tema envolve uma das principais vulnerabilidades do Brasil: hoje, os dados públicos do país se encontram hospedados em nuvens de big techs internacionais, o que gera custo e uma dependência da nossa nação. Para a comunidade científica, não é possível a garantia de uma Soberania Nacional sem a soberania digital do próprio País.
Este é um dos diagnósticos presentes na publicação “Vozes da Ciência – O Brasil que Queremos”, que reúne 117 propostas direcionadas aos candidatos que estão concorrendo em diferentes cargos nas eleições de 2026 e que se comprometem com o desenvolvimento da Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I) no País. As propostas estão organizadas em sete eixos temáticos, sendo o segundo “Soberania Nacional: Digital, Tecnológica e Sanitária”.
“Soberania, no século XXI, deixou de ser decidida apenas em fronteiras e territórios: define-se também nos data centers, nas cadeias de insumos farmacêuticos e na infraestrutura informacional que organiza o debate público. Este eixo trata das três dimensões em que o Brasil corre o risco de se tornar dependente de outros países ou potências globais: a digital, a tecnológica em saúde e a informacional”, explica a comunidade científica no documento.
No âmbito da soberania digital, o alerta vem embasado por dados recentes. Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), Universidade de Brasília (UnB), Fundação Getúlio Vargas (FGV) e Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) mostrou que os governos brasileiros gastaram, de junho de 2024 a junho de 2025, mais de R$ 10 bilhões em serviços de big techs – sendo R$ 4,6 bilhões pelo Governo Federal, R$ 3,7 bilhões por governos estaduais e R$ 2 bilhões por prefeituras. Este montante refere-se a licenças de software, soluções de nuvens, aplicações de segurança e demais recursos.
Este grave panorama não é novidade. Na 77ª Reunião Anual da SBPC, realizada em 2025 na Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), o ministro da Previdência Social, Wolney Queiroz, já alertava sobre a dependência tecnológica que o País se encontra:
“Os dados brasileiros, como os do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e da Segurança Nacional, estão em big techs e nuvens que não são nossas, que sequer estão sediadas aqui no Brasil. Isso dá margem a ataques mais danosos do que os com bombas. É aqui, por meio da Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I), que vamos encontrar os recursos necessários para construirmos nossa nuvem soberana”, disse na época, em conferência.
O documento “Vozes da Ciência” busca a atenção dos candidatos para uma realidade atual: o Brasil ainda paga para ser dependente. “Para que o Brasil atinja um patamar de maior autonomia digital, é necessária a definição clara de políticas ativas para a regulação das big techs, além do combate aos monopólios existentes”, destaca.
A presidente da SBPC, Francilene Garcia, destaca outra iniciativa importante que dará força às políticas de soberania de dados – elevar para 2% do Produto Interno Bruto (PIB) o investimento em Pesquisa & Desenvolvimento até 2034. Hoje, o País dedica 1,2% do PIB ao setor.
“Na dimensão digital, esse investimento permitirá ampliar a soberania brasileira sobre dados estratégicos de saúde, clima, biodiversidade, agricultura e serviços públicos. Na genômica, por exemplo, não basta gerar dados de sequenciamento: é preciso ter capacidade nacional para armazená-los, processá-los, integrá-los a outras bases e transformá-los em conhecimento, diagnóstico, medicamentos e políticas de saúde. O mesmo princípio vale para os demais dados estratégicos do país: desenvolver capacidade nacional para armazenar, processar e transformar dados em pesquisa, inteligência artificial, inovação e melhores políticas públicas, com segurança, proteção de direitos e menor dependência de plataformas e infraestruturas estrangeiras.”
Além da soberania digital, outras soberanias também são defendidas na publicação “Vozes da Ciência”. A primeira é a soberania informacional, que também envolve o fortalecimento da rede nacional de supercomputadores, o desenvolvimento de modelos de IA nacionais voltados aos desafios públicos do País, além da formação continuada de profissionais capacitados para este desafio de longa duração.
A segunda é a soberania tecnológica em saúde, já que 96% dos Insumos Farmacêuticos Ativos (IFAs) utilizados no Brasil são importados e o gasto com medicamentos chegou a US$ 13 bilhões em 2024. O documento alerta que o Brasil precisa fortalecer os produtores locais de insumos para a saúde, com a criação de um programa de Estado de 20 anos para sanar essa grave lacuna.
Para a presidente da SBPC, falar de soberania é algo urgente, principalmente se considerarmos os avanços tecnológicos cada vez mais rápidos e esse panorama de dependência que o Brasil se encontra. “Soberania não significa isolamento, mas capacidade de o país definir suas prioridades, proteger seus ativos e escolher em que condições coopera”, conclui.
Esta matéria faz parte do Observatório das Eleições 2026, iniciativa que busca conscientizar candidatos e eleitores a levarem a ciência para os debates políticos. Saiba mais no site oficial: https://portal.sbpcnet.org.br/observatorio-eleicoes2026/.

