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Vejam o estado lamentável da capital paulista. A tragédia do casal engolido pela enxurrada do córrego Morro do S faz os moradores pedirem mais obras. Porém, a galeria pela qual o veículo foi arrastado foi construída na gestão de Luiza Erundina (1989-1992), juntamente com outras obras, como a canalização do Córrego do Jaguaré. É nova, portanto. 

sao paulo enchente foto Marcos Santos USP imagemFoi mal projetada? Não. Os cálculos hidrológicos da vazão usavam, na época, 60% de cobertura vegetal. O Tempo de Concentração (Tc) era de cerca de 30 a 40 minutos para a gota mais longínqua atingir o talvegue. Hoje é de 10 a 12 minutos.

Piscinões devem ser alternativa só em último caso, o que falta é cobertura vegetal.  Onde deveria haver parques lineares, ao longo dos córregos, há vias que as imobiliárias usaram para elevar seu lucro. Compram o terreno, constroem as avenidas, edifícios e galerias. Essas vão se assoreando com materiais de toda a natureza, tornando necessária a limpeza mecânica, o que é impossível.

Sobre isso, o geólogo Álvaro de Souza traz más notícias. Temos 8.100.000 m3/ano de materiais de assoreamento. Ou 13,5 m3 de solo/habitante da Capital. Essa conjugação, trágica, produz caudais volumosos porque não há vegetação para diminuir o tempo de concentração. Ao chegarem nas galerias, encontram assoreamento, muitas vezes com mais de 1m de material endurecido e dificílimo de ser erodido manualmente. Temos a desgraça perfeita. Vazões torrenciais, causadas pelo aquecimento global, pistas impermeabilizadas e galerias que perderam capacidade. 

Enquanto isso, cortam-se de modo febril árvores e arbustos, e recuos são eliminados. Nos últimos dois anos, foram 5.200 árvores derrubadas em Pinheiros, onde a população luta heroicamente para brecar a devastação. Mais milhares foram retiradas na Lapa. O dispensável túnel sob a Avenida Senna Madureira vai derrubar ainda tantas outras. E se fala em eliminar 60 mil árvores em São Mateus para a instalação de um incinerador de lixo. 

Segundo a Revista Veja publicou, o prefeito Ricardo Nunes é verde, anda com uma pá no bolso. Mas as árvores centenárias dão lugar às pequenas mudas. Daqui a décadas, veremos os resultados. Até lá, viveremos uma Veneza tropical, sem gôndolas, mas com mortes, doenças, feridos, desaparecidos, prejuízos para famílias e comerciantes.

E a população continua mal informada, sem receber esclarecimentos técnicos para poder reivindicar o que realmente será decisivo para melhorar a vida na cidade.

NestorArtigo

Nestor Tupinambá é engenheiro civil (EESC/USP), mestre em Planejamento Urbano (FAU/USP) e consultor. Integra o Conselho Fiscal do SEESP para a Gestão 2026-2029.

Problema antigo para os paulistanos: enchente na Zona Leste de São Paulo. Foto: Marcos Santos/USP

Fonte: Seesp