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ESG é a sigla em inglês de Environmental, Social and Governance (Ambiental, Social e Governança), diretrizes definidas por e para empresas e corporações a uma agenda de práticas sustentáveis. A curto e médio prazo estas precisarão ser incorporadas no perfil profissional de engenheiros, sejam aqueles que já estão no mercado, em busca de recolocação ou ingresso. Para especialistas ouvidos pelo Jornal do Engenheiro, será uma virada de chave nos próximos anos.

 

ESG interna principal foto freepik“Diria que a agenda ESG é maior do que a transformação digital por que passamos. Não temos como voltar para trás com relação às mudanças climáticas. Então, teremos que encontrar uma forma de dar certo. Tem a ver com nossa subsistência. Corremos sério risco de que a natureza nos puna de forma muito severa”, alerta Ricardo Assumpção, CEO da Grape Global ESG, consultoria especializada em integrar sustentabilidade nas ações das empresas.


Ele lembra que a iniciativa privada atingiu um tamanho tão grande nas ultimas décadas que dentre as 100 maiores economias do mundo, 69% são empresas e não países. Por isso, acabam sendo cobradas pela sociedade e pelo mercado financeiro por conta do risco maior que oferecem. Além disso, atribui essa exigência maior a uma mudança geracional. "As ações de ESG vêm para medir o nível de sustentabilidade das empresas", destaca. Assim, na sua ótica, contribuem ao equilibro delas para que continuem sendo lucrativas, mas com ações socioambientais de grande impacto.

 

Cancelamento do bem

 

A mudança no perfil da chamada geração Z, na faixa dos 25 anos (nascidos entre 1995 e 2010), também é apontada por Graziella Maria Comini, professora da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA/USP) e coordenadora do Centro de Empreendedorismo Social da instituição (Ceats), como fator de pressão para que empresas tirem seus discursos do papel.

 

“Para essa geração, a reputação da organização está atrelada à dimensão social e ambiental e ela quer saber qual é seu propósito. E a pressão vem do público externo e interno. Para manter um profissional de qualidade, a empresa vai precisar convencê-lo sobre o que faz. Essa mesma geração que faz cancelamento de reputações nas redes sociais também vai cancelar as empresas que não se enquadrarem nessa mudança”, conta a especialista da FEA, que completa: “O contexto de urgência, principalmente com as mudanças climáticas, tornou a agenda ESG de todos, não somente das empresas.”

 

As mudanças sociais também são apontadas por ela como fator de peso no momento de avaliar uma empresa e também o candidato a uma vaga. “Hoje, a inclusão racial, de gênero e de aceitação da diversidade com relação à orientação sexual é muito forte, o que implica reconhecer nosso racismo e machismo estrutural, por exemplo. Não é só incluir corpos negros. Mas olhar para essas pessoas com suas histórias e identidades culturais diferentes.”

 

Graziella Comini: empresas que não se enquadrarem na mudança serão "canceladas" por nova geração. Foto: Acervo pessoal
No entanto, a falta de regulamentação dessas práticas e de ferramentas que consigam medir os resultados das iniciativas privadas em ESG acaba deixando as empresas muito à vontade para não efetivarem os discursos. “O fator determinante que teremos no curto prazo é a regulamentação do mercado", vislumbra Assumpção, para quem isso só vai se dar quando a apresentação de dados relativos à inclusão e sustentabilidade pelas companhias forem obrigatórios.

 

Histórico

 

O conceito de responsabilidade social corporativa é de 1953. Ao longo dos últimos 50 anos, foi aprofundado, principalmente no âmbito da Organização das Nações Unidas (ONU). Em 2000, por iniciativa do então secretário-geral, Koffi Annan, foi aprovado o Pacto Global com o objetivo de aproximar o setor privado da agenda de desenvolvimento sustentável. Isso deu visibilidade à necessidade de tornar mais clara a comunicação das organizações, principalmente para os tomadores de decisão financeira. Em 2004, em relatório da ONU intitulado “Quem se importa ganha” (Who Cares Wins), destinado ao mercado financeiro, aparece pela primeira vez o acrônimo ESG, justificando que essas três linhas de atuação precisariam andar juntas.

 

No Brasil, segundo a psicóloga e professora da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto da USP (FEA-RP/USP), Adriana Caldana, as ações de ESG passaram a ser mais discutidas em 2019, trazidas pelas corretoras e bancos brasileiros, embora as carteiras verdes de investimento já existissem no País há mais tempo. O Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE), por exemplo, que é uma ferramenta de análise de sustentabilidade das empresas listadas na Bolsa de Valores, foi criado em 2005. Nos anos seguintes foram criados os títulos verdes (green bonds), atrelados a tais metas.

 

Ela explica que a pressão do mercado financeiro pela precificação de tudo acabou criando valor no setor e a possibilidade de lucrar com a questão ambiental, como o mercado de carbono. Só a partir daí, diz Caldana, "as empresas e cadeias produtivas começaram a ter uma preocupação maior com a mitigação do efeito estufa para obter carbono zero, principalmente após o Acordo do Clima de Paris, em 2015”, lembra.

 

Emergência climática e sanitária

 
Não obstante, apenas em 2020 o mercado de capitais brasileiro começou a trazer o conceito de ESG com mais força, principalmente com a ocorrência da pandemia e as mudanças climáticas. A despeito da situação emergencial, Caldana lamenta o fato de ainda não existir "nenhuma empresa 100% sustentável". E complementa: "Há muitas promessas de que vão reduz ou até ‘atingir zero’ emissões de carbono no futuro. Na fase atual as empresas ainda buscam diagnóstico e estabelecimento de metas.”

 

O consultor em ESG concorda e prevê que “quem não começar agora vai ter muita dificuldade lá na frente”. Assumpção é categórico: “Hoje, essa nova geração é apenas consumidora. Daqui a cinco anos começará a ocupar posições de liderança nas empresas e também como financiadores de produtos e marcas. Isso vai causar um impacto direto.”

 

Ele aponta ainda que o consumo excessivo de recursos naturais começa a dar sinais de que vai comprometer os negócios, como as alterações no regime hídrico do planeta que afetam diretamente as chuvas e, por sua vez, as empresas do agronegócio e de infraestrutura, que são os grandes poluidores emissores de carbono. “A pandemia e as mudanças climáticas colocaram um holofote na nossa fragilidade. Existem fatos reais que obrigam a gente a se mexer agora, sob risco de lá na frente não ter equilíbrio real de custo ou de arcar com o custo da mudança climática, que será muito maior do que os investimentos que devem ser feitos agora para evitar o pior.”

 

A professora Tereza Cristina Carvalho, coordenadora do Laboratório de Sustentabilidade da Escola Politécnica da USP (Poli-USP), acredita que não há outra saída senão investir em ESG: “Empresas mais sustentáveis têm melhores desempenhos. As empresas e os profissionais precisam se conscientizar que iniciativas sustentáveis, como a reciclagem de resíduos, por exemplo, geram efetivamente redução de custos.”

 

Um estudo realizado entre 1993 e 2010, pela Harvard Business School, com 180 empresas americanas, revelou essa importância. Após 18 anos de acompanhamento, um dólar investido nas ações do grupo de empresas sustentáveis em 1993 virou US$ 22,60 em 2010, enquanto no de baixa sustentabilidade resultou em US$ 15,40. Em 11 dos 18 anos, as sustentáveis foram melhores. Nos primeiros seis anos, essas ficaram atrás no desempenho, mas depois compensaram.

 

Oportunidades

 

Os setores de infraestrutura e engenharia devem sentir diretamente essas mudanças de comportamento. E por isso vão demandar muito investimento e, por consequência, render muitas oportunidades. Em um primeiro momento, as consultorias concentrarão os maiores esforços no sentido de “dar aquele primeiro empurrão para mostrar o caminho”, como conta Assumpção. Depois, será preciso um conjunto de profissionais de todas as áreas, inclusive engenharia, com conhecimento das práticas em ESG. “Todos deverão entender sobre esses processos para atuar integrados”, diz.

 

Ele não arrisca números, mas afirma que ESG é a “especialização do futuro” e que nos próximos anos as oportunidades ficarão mais claras, quando todos os elementos das cadeias produtivas serão cobrados por suas atitudes.

 
Para disseminar os conceitos, serão necessárias muitas lideranças com esse perfil sustentável, servindo de fonte de inspiração, o que abrirá novas possibilidades nas empresas. Carvalho ressalta que o engenheiro em geral é um quadro de liderança e, portanto, vai precisa absorver o que é ESG não somente com cursos, mas no dia a dia, alterando o padrão comportamental.

 

Segundo ela, um dos setores que está fortemente aquecido é o de tecnologia da informação. Uma estimativa é de que há entre 400 mil e 500 mil postos de trabalho à disposição. "Faltam profissionais. Estamos até mesmo com dificuldade de conseguir estagiários", revela a coordenadora do Laboratório de Sustentabilidade da Poli. “Já existe a expressão Twin Transition nas economias globais, que implica uma mudança a partir do conhecimento em tecnologias digitais e sustentabilidade. O engenheiro precisa ficar atento a isso para se tornar um profisisonal mais atraente ao mercado”, completa a especialista.

 

Governo na contramão

 

Todos os profissionais ouvidos foram categóricos em afirmar que os contextos dos países e a condução das políticas públicas ambientais e sociais exercem forte influência em seus respectivos mercados, emprestando-lhes ou retirando-lhes credibilidade.

 

“Somos detentores do bioma mais importante do mundo, com um protagonismo histórico nessa questão. Infelizmente, temos um atual governo federal que vai na contramão de tudo isso, perdendo o controle sobre a preservação das florestas, com aumento de queimadas”, analisa Assumpção. Ele aponta que isso vai impactar nas negociações climáticas entre países.

 

Neste ano, com a Conferência do Clima em Glasgow, na Escócia, entre 1º. e 12 de novembro, um dos itens do Acordo de Paris a serem debatidos é o que trata da regulamentação do mercado de carbono, que pode render oportunidades lucrativas ao setor privado brasileiro. E, portanto, mais trabalho para engenheiros. Mas depende de regulação no Brasil.

 

Deborah Moreira

Imagem do destaque: Freepik