sociais

logos

Cresce Brasil

A caminho da segunda década do Século XXI e com todos os avanços sociais de gênero, as mulheres ainda são apenas 28% dos pesquisadores em todo mundo e apenas 3% dos Prêmios Nobel nas áreas científicas (Medicina, Física, Química). O que se pode fazer para melhorar esse quadro?

InternetUm debate promovido nessa quarta-feira (9/10), em audiência pública na Câmara dos Deputados, buscou respostas. Intitulada “Mulheres no Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Brasil”, a audiência foi convocada pela Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher, por requerimento da Deputada Alice Portugal (PCdoB-BA), e teve como objetivo fazer um diagnóstico e colher sugestões sobre como aumentar a efetiva presença da mulher no mundo técnico científico.

Foram convidadas à mesa as professoras Vanderlan da Silva Bolzani, do Instituto de Química da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Marilda de Souza Gonçalves e Maria Fabiana Damásio Passos, ambas diretoras da Fiocruz (na Bahia e em Brasília, respectivamente) e a médica Julieta Palmeira, Secretária Estadual de Políticas para Mulheres da Bahia.

Para Vanderlan Bolzani, que também é conselheira da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), a discussão tem que ser iniciada pela ampliação dos investimentos em educação, ciência e tecnologia. A professora alertou que as políticas de promoção da ciência como um todo – para meninos e meninas – e de ampliação da participação da mulher na área têm que ser pensadas como de Estado e não de um governo que acaba quando termina o mandato. “Sem educação, ciência e tecnologia, nós não teremos futuro”.

Apresentando dados do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Bolzani mostrou que as mulheres brasileiras estão bem posicionadas nos mestrados (52% dos formados) e doutorados (47%) em pesquisa e ensino e também em Ciências Exatas e da Terra (53% e 34, % respectivamente). Porém, só uma em cada quatro mulheres atinge o nível 1A, que é o topo da carreira pela classificação do CNPq. Na área da Química de Produtos Naturais, relatou a professora, só existem duas mulheres no nível mais alto no Brasil. “Um país continental, que detém a maior biodiversidade do planeta, só tem duas mulheres pesquisadoras no nível 1A”, exaltou.

Para Bolzani, um caminho é atacar os estereótipos de que as mulheres são “carinhosas, cuidadosas, protetoras” e por isso serviriam apenas para profissões mais ligadas às ciências humanas, e não para as chamadas “hard sciences” (ciências duras), como Matemática, Física e Química. “Esses estereótipos têm que ser atacados em todos os espaços, no Congresso, nas escolas e em todas as políticas públicas”, recomendou.

Pesquisadora em genética, com ênfase em biologia molecular, Marilda de Souza Gonçalves destacou a importância de garantir para as mulheres um lugar nos espaços de poder. “Uma mulher no poder pode mudar o mundo”, afirmou. Citou um estudo da Unesco, realizado em 14 países, apontando que as chances de uma mulher atingir o bacharelado, mestrado e doutorado são de 18%, 8% e 2%, respectivamente, comparado a 37%, 18% e 6% dos homens na mesma relação. Essa baixa presença se deve a diversos fatores, entre eles a maternidade e atividades domésticas para as quais as meninas são muito mais cobradas do que os meninos.

Gonçalves sugeriu que as políticas públicas sejam orientadas pela Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas, pela qual os países se comprometeram com medidas para colocar fim à discriminação de gênero, mas também ao feminicídio e todo tipo de prática nociva, como casamentos prematuros e mutilações.

Pela Agenda 2030 também há um compromisso com a valorização do trabalho de assistência doméstica, garantindo a igualdade de oportunidades para as mulheres em todos os níveis de tomada de decisão e assegurando a saúde sexual, utilizando tecnologias de base para questões como o combate a violência e o uso de métodos contraceptivos. “Que a mulher possa exercer na sua plenitude o seu desenvolvimento intelectual e possa escolher o que quer ser”, afirmou a diretora da Fiocruz Bahia.

Marilda de Souza Gonçalves chamou a atenção também para a desigualdade de raça que deixa mulheres negras em pior situação que a das mulheres brancas em indicadores de escolaridade e renda. Contou que a própria Fiocruz – onde Nísia Trindade é a primeira mulher a presidir a instituição em 120 anos – tem um programa de enfrentamento à questão de gênero, incluindo editais para estímulo à participação de meninas na ciência. Segundo ela, do total de colaboradores da Fiocruz, 60% são mulheres e destas, 60% estão em funções de pesquisa. “Infelizmente as mulheres negras são minoria na nossa instituição, mas há um comitê trabalhando para ampliar a igualdade de gênero e raça”.

Ações coletivas

A psicóloga Maria Fabiana Damásio Passos, Diretora da Fiocruz em Brasília, que representava a presidente Nísia Teixeira, defendeu a criação de políticas de equidade para garantir a participação das mulheres. “Um relatório da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico ou Econômico), publicado este ano, apontou que as mulheres brasileiras têm 34% mais probabilidade de se formar, mas menos chances de conseguir emprego.” Para a psicóloga, é preciso reforçar as articulações com organismos internacionais para o desenvolvimento de ações coletivas, de forma a garantir mais possibilidades de mulheres na sociedade e no mercado de trabalho. “Não há possibilidade de enfrentar essa agenda de ampliação da participação das mulheres na ciência se não houver articulações com organismos internacionais, se não conseguirmos identificar qual a rede possível para o desenvolvimento de ações coletivas em torno do incentivo às mulheres e meninas na ciência”.

A médica Julieta Palmeira, Secretária Estadual de Políticas para Mulheres da Bahia enfatizou a necessidade de ações mais estruturantes voltadas para as mulheres nas ciências, porque se de um lado há grande presença feminina, por outro elas não são chefes de grupos de pesquisa. “Poucos são os investimentos que elas conseguem, não porque seus trabalhos não sejam brilhantes, mas pela desigualdade de gênero que afeta a ciência e outras áreas”, afirmou.

Segundo a executiva, o funil da desigualdade de gênero se acentua ainda mais na área das ciências em função da própria cultura machista que vai direcionando o papel das mulheres para as humanidades. “Não podemos deixar que áreas específicas do conhecimento sejam fechadas para as mulheres. A cultura do machismo, do patriarcado se espraia em todas as áreas em diversos ambientes do conhecimento e também na ciência”.

Para Palmeira, a discriminação vivida pelas mulheres ajuda a explicar também os alarmantes índices de violência de gênero que, para ser enfrentada, deveria incluir iniciativas não só contra a violência, mas também as que reposicionem a mulher nos postos de decisão na sociedade, dentre os quais, na área da ciência.

A deputada Alice Portugal encerrou o debate lembrando que a condição de cidadãs para as mulheres é muito recente, tanto pelo direito ao voto, conquistado só em meados do século passado, quanto para além dele. “A possibilidade da identidade profissional da mulher também é muito recente, ainda hoje somos minoria nos espaços de poder”. Ela reiterou a necessidade de combate aos estereótipos que acabam impedindo, até pelo desestímulo, o acesso das mulheres à ciência e tecnologia. “Somos todas formadoras de meninas que esperam o beijo milagroso do príncipe encantado para acordar a bela adormecida de um sono secular”, disse Portugal.

Janes Rocha – Jornal da Ciência

Adicionar comentário


logoMobile