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Ao abrir o envelope que revelava a vencedora do Euraxess Science Slam 2018, Arthur Domingos, vencedor da edição passada, declarou: “existem mulheres na ciência”. E foi assim que Caroline Cayres, doutoranda em engenharia de processos químicos e bioquímicos da Universidade do Rio de Janeiro (UFRJ), desconfiou que podia ser a campeã da sexta edição do Euraxess Science Slam no Brasil: ela era uma das três mulheres entre os cinco finalistas do concurso de comunicação científica promovido pela União Europeia.

A Euraxess – Researchers in Motion é uma iniciativa pan-europeia que fornece informação e serviços de apoio a pesquisadores profissionais. Com o apoio da União Europeia e dos seus Estados-Membros, apoia a mobilidade dos investigadores e o desenvolvimento de carreiras, reforçando simultaneamente a colaboração científica entre a Europa e o mundo. Através da Euraxess Links Brasil, a organização funciona como uma ferramenta de informação e networking para os pesquisadores interessados em colaborar ou realizar pesquisa na Europa. Anualmente, a Euraxess Brasil promove o Science Slam, concurso de divulgação científica cujo prêmio é uma viagem à Europa com tudo pago.

No ano de 2018, além dos representantes da Euraxess e do público presente, integraram o júri a diretora executiva da Swissnex Brasil, Maria Conti, a diretora de redação do Instituto Ciência Hoje, Bianca Encarnação, os Acadêmicos Edson Watanabe, diretor do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa em Engenharia (Coppe), e Eliete Bouskela, diretora científica da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), ambos na foto ao lado.

O bolo, a música, o sorgo e o bagaço da laranja

Na noite do dia 17 de outubro, encerradas as votações do evento que aconteceu no Consulado da Itália, no Rio de Janeiro, foi divulgada a vitória da engenheira carioca Caroline Cayres. Fazendo muito bom uso dos rápidos 6 minutos que os finalistas tinham para realizarem suas performances, a doutoranda da UFRJ apresentou ao público a pesquisa a partir da qual desenvolveu uma pré-mistura para bolo “sem glúten, rica em fibras e deliciosa”.

Durante sua performance, Caroline apresentou, de forma muito bem-humorada, dois ingredientes especiais de sua receita: o sorgo e o bagaço da laranja. Parodiando a composição “Eu sou o samba”, de Zé Keti, a cientista dançou e cantou: “Eu sou o sorgo / Sou africano / Isso mesmo, sim senhor! / Quero mostrar ao mundo que tenho valor / Não tenho um pingo de glúten! / Eu sou o sorgo / Eu sou plantado bem no meio de janeiro / Sou eu quem levo a energia / Para milhões / De aves no galinheiro!”.

No Brasil, o sorgo é pouco consumido, sendo praticamente toda sua produção utilizada como ração animal. No entanto, a engenheira ressaltou que o sorgo é um cereal pouco calórico, sem glúten, de custo de produção baixo e exige pouca água para crescer, além de ser muito consumido no continente africano e o quinto cereal mais plantado no mundo. Por isso, inspirada por Dorival Caymmi, ela afirmou em sua canção: “Quem não gosta de sorgo / Bom sujeito não é… / Não tem papo cabeça / Sustentável não é!”.

E parafraseando Zeca Pagodinho, Caroline apresentou mais uma estrela da sua receita: “Sobrou pra mim / O bagaço da laranja!”. Ela ensinou que o bagaço da laranja aumenta a quantidade de fibras solúveis no bolo, estas que são nutrientes atuantes nas funções intestinais e auxiliam na prevenção de uma série de doenças. E a junção do sorgo, do bagaço da laranja com os outros ingredientes resultou num bolinho sabor chocolate com laranja que a cientista afirmou: “É impossível comer um só!”.

Ela declarou que a sua pesquisa mostra como é possível ingerir alimentos saudáveis, sustentáveis e, ao mesmo tempo, gostosos. E para resumir seu trabalho, trocou o samba pelo funk, e, inspirada pelo “Show das Poderosas”, de Anitta, cantou: “Preparo / Um bolo sem glúten / Com casca de laranja / Que é bem fofinho / E vem num pacotinho / Mistura manteiga / 1 ovo e leitinho / E como com café carioca!”.

Ao receber seu prêmio, que dá direito a uma viagem para Europa e visita a uma instituição de pesquisa da escolha da cientista, Caroline Cayres revelou que já “flertava” com a final do Science Slam há 3 anos e, muito animada, estimulou o público a conhecer mais o sorgo e o bagaço da laranja.

A final mais difícil de escolher

Para a representante do Euraxess Brasil, Charlotte Grawitz, a final do Science Slam 2018 foi a que provocou mais indecisão entre os jurados. Ela informou que esta foi a última edição do concurso e afirmou o compromisso do Euraxess com a comunidade científica brasileira: “Já alcançamos um patamar tão alto que não dá mais para melhorar essa comunicação científica. Mas o Euraxess continua aqui [no Brasil] a disposição de vocês para ajudá-los no que nós fazemos de melhor, que é ajudar a tornar seus sonhos de mobilidade em realidade”.

Confira a seguir como foram suas performances na última edição do Euraxess Science Slam no Brasil:

Tem que brincar pra estudar

Doutora em educação física pela Universidade Católica de Brasília (UCB), Isabela Almeida subiu ao palco levando o público de volta à infância. Como se recitasse um poema sobre ser criança, Isabela lembrou através de suas rimas como era bom brincar de amarelinha, pique-esconde e jogar bola. Partindo então para sua tese de doutorado, premiada em um congresso na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, ela perguntou ao público: “A criança quer brincar, mas tem que estudar. E se eu te contar que o contrário também pode funcionar?”

Através da eletroencefalografia, Isabela analisou em sua pesquisa a atividade cerebral na infância. E obteve o seguinte resultado: o lóbulo pré-frontal, onde há funções executivas fundamentais para o desenvolvimento do aprendizado, é ativado por meio de brincadeiras e corrida. Ela explicou que, a partir da contração muscular, ocorre a liberação do fator neurotrófico de desenvolvimento cerebral, o que significa, em outras palavras, que a prática de exercícios físicos estimula uma maior oxigenação e nutrição do cérebro, melhorando a memória de longo prazo.

E para guiar o público nessa descoberta, a cientista colocou o boné e soltou a batida para fazer um rap sobre as relações entre atividade física e atividade cerebral: “Não é qualquer exercício que funciona meu irmão / Depende do tipo, intensidade e duração / Tenho uma ideia que quero te passar / Vinte minutos de corrida / Nem rápido, nem devagar”. Utilizando as rimas do rap, nem mesmo um problema técnico, quando a batida parou de tocar ao fundo, abalou a empolgação de Isabela, que pediu e contou com as palmas do público para marcar o ritmo de sua canção. A pesquisadora foi até o Rio de Janeiro para participar da final e, com ritmo e rima, conseguiu sintetizar sua tese de doutorado: “Tem que brincar / Tem que brincar / Tem que brincar pra estudar”.

Não sentir dor seria vantajoso?

Mestrando da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP),  Raimundo Soares deu início a sua apresentação com uma pergunta que fez o público pensar: “O que você sabe sobre o seu cérebro?”. Transmitindo sua paixão para o público, Raimundo falou sobre neurociência e o papel do neurocientista de investigar como o cérebro funciona, como são os neurônios e o que chamamos de sistema nervoso. É este o trabalho que ele quer realizar pelo resto de sua vida.

“Não sentir dor seria vantajoso? Sim ou não?” Indagou Raimundo à plateia. Para falar sobre esta questão, tema de sua pesquisa, lembrou de quando tinha 6 anos e decidiu ajudar o pai a preparar a comida. Ele colocou a mão em uma panela que estava no fogo, e tirou rapidamente, pois estava muito quente. Naquela época, ele não sabia o que estava acontecendo, mas, hoje, o pesquisador explica: ao colocar a mão na panela, foram ativados alguns receptores capazes de captarem estímulos nocivos – os nociceptores -, e esta mensagem foi levada pelos neurônios até a medula espinhal; de lá saiu um comando direto para seu músculo, fazendo com que ele se contraísse e, assim, criando um reflexo.

Em seu laboratório, o pós-graduando busca estudar essas relações entre emoção, sensação e dor. Utilizando ratos, ele pesquisa a antinocicepção induzida por medo: fenômeno que ocorre quando a sensação de medo bloqueia a capacidade de sentir dor. Raimundo explicou que esse estudo permite uma melhor compreensão da relação entre medo e dor, e, com a utilização de diferentes drogas,  possibilita a criação de novos medicamentos para doenças como síndrome do pânico, ansiedade e até mesmo dores crônicas.

Exossomos: mantendo as suas células conectadas

Mestrando pela Escola de Educação Física e Esporte da USP, Guilherme Defante explicou para o público a interação entre as células musculares e as demais células do corpo, por meio de duas invenções muito populares no Brasil todo: o Facebook e o WhatsApp. Vestido a caráter, Guilherme interpretou o próprio músculo esquelético e, com o perfil no Facebook de seu personagem na tela, brincou que é mais fácil de encontrá-lo nas fotos tiradas pelos “humanos” enquanto estão na academia se exercitando. Se os seres humanos se comunicam através do WhatsApp, as células musculares o fazem por meio dos exossomos, ele explica.

Os exossomos são pequenas vesículas onde as mensagens das células musculares são depositadas e posteriormente enviadas para as demais células do corpo. Com muito bom humor, o mestrando da USP exibiu na tela o “app” Exossomos, pelo qual o músculo esquelético estava se comunicando com os ossos, o pâncreas, o coração e o cérebro.

Vencedora celebra resultadoVencedora celebra resultadoGuilherme ressaltou que as mensagens transmitidas pelo músculo esquelético podem fazer o indivíduo viver mais e melhor, mas isto irá depender do estilo de vida de cada um. Ele afirmou que a prática de exercícios físicos diários pode aumentar a expectativa de vida em até 7 anos, e que estudos têm mostrado que esses benefícios podem ocorrer especialmente pela ação dos exossomos.

Ao final de sua performance, o cientista convocou o público e os jurados a também usarem suas redes sociais para compartilhar mensagens promovendo um estilo de vida mais saudável e concluiu: “Quando você se movimenta, você não só muda a sua vida e melhora sua saúde através dos exossomos; quando você se movimenta, você pode também movimentar o mundo inteiro”.

A peleja pelo diamante

Ao som de um forró, a engenheira mecânica Sílvia Garcez subiu ao palco do Euraxess Science Slam para realizar a última performance da noite. Mestre em ciência, inovação e modelagem de materiais pela Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc), a baiana combinou ciência e cultura brasileiras ao recitar o cordel sobre seu trabalho com diamantes artificiais: “Trago um pouco da nossa cultura / Como nordestina que sou, / Para mostrar pro mundo com ela / É possível agradar a leigo e doutor”.

Vestida inspirada na moda do cangaço, foi por meio de seu cordel, “A Peleja pelo Diamante”, que a engenheira narrou de início ao fim o processo da pesquisa que desenvolveu-se em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em São José dos Campos, São Paulo. Passando pela obra de grandes cientistas como Newton, Bragg e Lavosier, Sílvia compartilhou um pouco da história do diamante e as descobertas feitas sobre sua constituição.

Inspirado pelo método de Eversole, em que se cria diamante em baixas pressões na forma de vapor, o grupo de pesquisa de Sílvia transformou moléculas gasosas em diamante, dentro de um reator. Em meio as rimas, a cientista explicou que, visando a alta adesão e baixo custo para a produção fabril, o grupo concluiu que o aço ferramenta era o tipo de metal com a quantidade ideal de dureza e percentual de carbono para a produção de diamante.

Encerrando sua performance, Sílvia surpreendeu mais uma vez o público e distribuiu o folheto da peleja pelo diamante para cada um dos presentes. E com sua simpatia saiu, assim como chegou: dançando.

Ascom ABC

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