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Maria Helena de Araújo é presidente do Sindicato dos Engenheiros no Estado do Ceará (Senge-CE) desde o dia 31 de março de 2016. Sua biografia é um retrato dos desafios da mulher engenheira no Brasil. No final da década de 1970, quando se formou pelo Centro de Ciência Agrárias da Universidade Federal do Ceará (UFCE), só obteve a primeira oportunidade no mercado após muita persistência. “Ao tomar conhecimento de que haveria contratação para fazer o inventário florestal do Estado do Acre, lá fui eu oferecer minha força de trabalho, até de graça. Consegui esse trabalho ‘na marra’. Antes, no município de Feijó, no Acre, já havia passado uma situação de discriminação quando me foi negada uma vaga por eu ser mulher”, recorda.

Helena se tornou mestre em “Desenvolvimento e meio ambiente” com especializações em Agroengenharia e Irrigação e Drenagem, é servidora pública aposentada e hoje atua como consultora na área de políticas públicas.  É diretora da Confederação Nacional dos Engenheiros Agrônomos (Confaeab) e já foi conselheira do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Crea-CE (Crea-CE) e  fez parte de associações de engenheiros agrônomos do Acre e do Ceará.

Uma das poucas mulheres a presidir um sindicato cuja categoria ainda é formada em sua maioria por homens, Helena acredita ser preciso fortalecer a luta a partir da união e mobilização das engenheiras. “Nós, mulheres, temos a obrigação de nos engajar nesse tema”, afirma.

Na área da comunicação, um dos esforços do Senge-CE é o programa local na rádio O Povo CBN, chamado "Tecnologia no Dia a Dia", sempre às quintas, das 15h às 16h. Nesta semana, no Oito de Março, haverá um especial sobre o Dia da Mulher com participação do presidente da FNE, Murilo Pinheiro. Para sintonizar a rádio no dial FM é 95,5 e AM 1010. Também na internet neste link.

Como a engenharia entrou na sua vida?

Helena Araújo/Foto: Estúdio ChaconHelena Araújo/Foto: Estúdio ChaconSou engenheira agrônoma. Completo em julho próximo 40 anos de formada. Amo minha profissão. Ela representa o A do Sistema Confea/Crea. A grande diferença entre a Agronomia e as demais engenharias está no contexto biológico, econômico e social que recebemos na matriz curricular, além das ciências exatas que nos faz engenheiros e engenheiras. A engenharia no sentido amplo entrou assim em minha vida, a partir da Agronomia. E hoje me sinto orgulhosa em representar uma entidade cuja base é formada por essas profissões.

E como tem sido a sua experiência num curso majoritariamente masculino e, depois, no mercado de trabalho também com esse perfil?

De acordo com o Confea, as mulheres representam 14,1% dos profissionais registrados no Sistema. No Ceará esse número é 13,98%. Imagine quando ingressei há 40 anos? Nós éramos raridades. A minha turma, de julho de 1978, foi –  acredito que seja ainda – uma das que  bateu recorde em número de mulheres em sala de aula: 20. Mesmo assim, apesar dos meninos de nossa turma ter nos incorporado, ainda existiam alguns que nos olhavam meio atravessados. Um dia um professor perguntou se estávamos ali à caça de marido. Era assim que nos viam. Quanto ao mercado de trabalho, este era bem seletivo, porém também prevalecia o “quem indica”, graus de parentesco etc.. Como não tinha privilégios, ao me formar fui de carona para o Acre. Lá, tive meu primeiro emprego como profissional, no antigo IBDF, atual Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis). E consegui esse trabalho “na marra”. Isso porque ao tomar conhecimento de que haveria contratação para fazer o inventário florestal do Estado, lá fui eu oferecer minha força de trabalho, até de graça. E antes disso, no município de Feijó, também no Acre, já havia passado uma situação de discriminação quando me foi negada uma vaga por eu ser mulher.

Em 2018, quais os desafios para a engenheira se estabelecer na vida profissional?

Na atual conjuntura, as oportunidades estão reduzidas seja para mulheres e também para os homens. É uma falácia do governo e da mídia que o País está saindo da crise. A engenharia vem sendo prejudicada por causa da cobertura midiática da Lava jato, colocando a sociedade contra os engenheiros, profissionais que contribuem para o desenvolvimento do Brasil e que fazem a inovação acontecer. Precisamos inovar cada vez mais, nos capacitar, empreender, sermos criativas, pois somente assim venceremos as dificuldades.

Quais as principais bandeiras e propostas da sua gestão no Senge-CE?

Assumimos com o intuito de fazer o Senge-CE um local agradável e prazeroso, ou seja, concluir a reforma da sede, que estava paralisada. O que fizemos logo no primeiro ano. O desafio agora é tornar o sindicato autossustentável, o que poderá se concretizar a partir de parcerias que estamos firmando. Isso é um dos desafios. Com a Reforma Trabalhista, alguns sindicatos ficaram sem chão – até porque não houve o aviso prévio. Uma bandeira contínua é o cumprimento da Lei 4.950-A, que institui o piso salarial da categoria. Também buscamos inovar em relação aos benefícios. Outros dois desafios para os próximos meses é fortalecer o “Encontro de gerações”, atividade promovida pelo Núcleo Jovem do Senge-CE, que tem como objetivo a troca de experiências entre profissionais e estudantes; e a implementação do Centro Vocacional Tecnológico (CVT), para estimular a continuação da formação técnica dos profissionais de nível superior. Estamos buscando ainda a modernização de nossos serviços, com metas a serem conquistadas até o final da gestão, em março de 2019.

Como o movimento Engenharia Unida pode ajudar nessa tarefa?

Devemos ousar e trabalhar para colocar a engenharia no patamar de onde nunca deveria ter saído. O movimento Engenharia Unida, capitaneado pela FNE, além de ser uma oportunidade, é o único movimento atual que oferece alternativas para sair da crise. Ele não faz somente diagnósticos, aponta oportunidades aos governantes e profissionais. Porém, isso somente pode acontecer com o engajamento de todas as entidades e setores envolvidos.

O Dia Internacional da Mulher nasceu de importantes lutas de trabalhadoras, como pela redução de jornada de trabalho e pela igualdade de direitos e salários. Essa luta continua atual?

Essa luta é atual e precisa sempre estar presente. Mesmo em algumas modalidades não sendo tão perceptível, a questão de gênero existe. Nós, mulheres, temos a obrigação de nos engajar nessa luta. As mulheres profissionais têm tripla jornada de trabalho: como profissionais, companheiras e mães. Somos quase sempre responsáveis pela administração de nossos lares. Essas atividades são imperceptíveis na maioria das vezes. Isso sem contar com a violência que afeta muitas de nós. Em relação aos salários, mesmo não tendo a mesma disparidade de outras categorias, ainda assim as engenheiras têm no geral um salário menor e não ocupam, na mesma proporção, os cargos existentes, seja no setor público ou privado. Essa diferença também se reflete na política cujos mandatos atuais são ocupados por menos de 10% de mulheres. Precisamos consolidar as conquistas, lutar por equidade e por direitos não simplesmente iguais aos dos homens, mas sim por direitos justos que reconheçam o papel da mulher engenheira.


Deborah Moreira
Comunicação FNE

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