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A Conferência "Alimentação saudável: um direito de todos e todas", que ocorreu no sábado (6/5), no Parque da Água Branca, zona oeste da capital paulista, se transformou em um ato em defesa da reforma agrária e agroecologia. Segundo o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que organizou a iniciativa, cerca de 5 mil pessoas acompanharam a atividade, que fez parte da 2ª Feira Nacional da Reforma Agrária, e outras 101 mil assistiram pela internet.

Integraram a mesa o ex-presidente do Uruguai José Mujica; a atriz Letícia Sabatella; a apresentadora Bela Gil; o ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha; e o dirigente nacional do MST João Pedro Stedile, que coordenou a conferência e fez algumas provocações iniciais. Como ele, todos os participantes fizeram uma ampla defesa da reforma agrária.

O dirigente do MST lembrou em primeiro lugar que a produção no campo vem sendo dominada em todo o mundo por algumas poucas empresas transnacionais. Atualmente são 58 empresas que controlam toda a produção agrícola do mundo. É possível visualizar esse oligopólio em cada setor dessa produção, controlada por cinco empresas. São as mesmas que produzem os agrotóxicos que adoecem os trabalhadores no campo e, depois, vendem o remédio para o tratamento de saúde: Bayer, Basf, Singenta, Monsanto, Dupont e Dow Chemical.

João Pedro Stédile lembrou que as empresas estão padronizando os alimentos, desde o conteúdo e embalagem até os locais de venda: “Você vai no supermercado de Pequim, do México, é igual ao Sonda aqui do outro lado da rua. Eles os transformaram numa grande pocilga onde nós somos animais bem comportados que comemos a mesma ração em todo o mundo, tudo à base de soja, de milho, de arroz”, exclamou.

Ele completou, ainda, que há 100 anos a humanidade se alimentava com 300 variedades diferentes de grãos, já que cada um aproveitava a sua maneira o que a natureza oferecia. Hoje, 80% da alimentação mundial depende de cinco grãos: trigo, arroz, feijão, milho e soja. E todos esses produtos são controlados por multinacionais: “Menos o arroz orgânico do Brasil, o qual o MST é o maior produtor da América Latina. Não dependemos do adubo químico deles, somente de nossos braços. Colocamos 600 mil sacos ao ano na mesa do trabalhador e na merenda escolar.” 

Para exemplificar a situação, o dirigente do MST recordou que no Rio Grande do Sul existiam 40 variedades de soja. Com a chegada das sementes transgênicas da Monsanto, hoje só há uma, à qual todo produtor gaúcho tem que pagar 2% de royalties, o que rende mais de US$ 100 milhões ao ano para a transnacional.

A atriz Letícia Sabatella leu um poema, de sua autoria, sobre a exploração e o mau uso dos recursos do Planeta e falou da importância do respeito ao limite sobre o que é sagrado, como nascentes de rios, hábito cultivado por populações indígenas, que a atriz vem acompanhando e defendendo: “Esse respeito do limite, do sagrado, é o que a gente precisa recuperar e o que estamos pedindo para uma sociedade onde o mercado se tornou deus.” Na sua opinião, iniciativas como a da Feira da Reforma Agrária contribuem para lembrar “que somos uma comunidade” e que é possível resgatar essa cultura.

Bela Gil fez questão de deixar claro seu posicionamento sobre a importância da mudança no padrão de produção que segue o modelo do chamado agronegócio, que estimula a monocultura, privatização de variedades genéticas – com a adoção de sementes transgênicas –, além da influência exercida pela indústria alimentícia com ultraprocessados. Em suas palavras, “só há um caminho”: "A gente precisa do apoio da sociedade civil porque, se depender do governo e do Estado, fica totalmente dependente do agronegócio. O brasileiro precisa enxergar a importância do trabalho do MST e de uma reforma agrária urgente", declarou a apresentadora.

Alexandre Padilha elencou alguns pontos que julga importante sobre o direito à alimentação, como priorizar as necessidades das pessoas em consumir alimentos in natura ou minimamente processados; garantir diversidade no prato e unificar esforços  da saúde pública com a agricultura familiar. “Os dez países do mundo que têm menor taxa de obesidade são os que a base da alimentação é diversa, multifatorial, valorizando seus pratos tradicionais”, afirmou.

Pepe Mujica concordou com as falas que o antecederam, lembrando que não se trata simplesmente da luta pela terra, mas por uma civilização diferente da atual. “Construíram megalópoles onde o homem pobre demora três horas no trânsito para ir ao trabalho, não tem tempo para si e compra comida pronta, abandonando a cultura de cozinhar seus próprios alimentos”, disse. E exclamou: "O mundo pode ser mudado, mas é preciso acumular gerações de sonhadores e lutadores sociais e políticos que vão mudar o pensamento", exclamou.

Ao final, falou da importância de valorizar a vida, a natureza, defendeu o fim da propriedade privada e denunciou a concentração de renda mantida pelo poder político e uma radical mudança cutural.

Josué de Castro
Na abertura da conferência, João Pedro Stedile lembrou a figura do médico Josué de Castro, pioneiro no combate à fome no Brasil e no mundo e autor do clássico "Geografia da fome". “Felizmente na década de 1950 o povo brasileiro produziu um dos maiores pensadores sobre o assunto. Josué de Castro, médico e geógrafo, militante socialista, que refletiu sobre a realidade onde se criou, no Pernambuco”, exclamou.

Naquele tempo, o pesquisador concluiu que as pessoas passavam fome não por culpa delas nem da natureza, mas sim devido às relações de produção na sociedade. Portanto, a fome é uma consequência social da exploração dos seres humanos. “Ele comparou e viu que havia menos fome no Sertão, onde a natureza é mais dura, mas onde os camponeses produziam seus alimentos, do que na Zona da Mata, onde a natureza é fértil, porém o latifúndio havia dominado, com trabalho escravo, com assalariamento e monocultura da cana-de-açúcar.“

Para homenagear o geógrafo, a CNTU lançou, em 2015, seu Observatório Sindical Josué de Castro da Alimentação e Nutrição com o objetivo de acompanhar, solicitar, avaliar e divulgar indicadores, políticas e a gestão públicas dos programas de alimentação e agricultura no País.


Deborah Moreira
Comunicação CNTU

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