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Cresce Brasil

O setor automotivo está presente em todas as regiões brasileiras com 64 unidades industriais, gera mais de 127 mil empregos diretos e 1,5 milhão na cadeia produtiva. Em anos de volumes recordes, já foram produzidas mais de 3,73 milhões de unidades. O setor investiu fortemente em engenharia e pesquisa e foi responsável por inúmeras inovações, dentre elas o carro movido a etanol, que teve início em 1975. A experiência adquirida com o Proálcool possibilitou a criação, em 2003, da tecnologia flex, que se transformou na mais bem-sucedida solução de uso de combustível renovável no mundo. Este é apenas um exemplo de sucesso da engenharia brasileira destacado no Anuário 2016 da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). Desde maio último, a entidade é presidida por Antonio Carlos Botelho Megale. Nessa entrevista ao Engenheiro, o executivo, apesar da retração do setor – a expectativa é encerrar o ano com 2,08 milhões de unidades vendidas, uma baixa de 19% ante 2015 –, acredita na recuperação da economia do País e defende mais inovação e tecnologia, tendo à frente a engenharia brasileira.

No final de 2015, a Anfavea entregou ao governo federal um programa de renovação de frota. Como está essa discussão?

É o programa “Sustentabilidade veicular” e o julgamos extremamente importante ao Brasil. Ele visa a segurança e tem preocupação ambiental. Propusemos uma alternativa à retirada de circulação de veículos sem condições e com alto nível de poluição, oferecendo uma bonificação para que o proprietário possa adquirir modelos mais novos e dentro dos padrões ambientais atuais. Isso fará com que a nossa frota seja, gradualmente, mais segura e menos poluente. Já solicitamos audiências com representantes do governo atual no sentido de retomar essa discussão.

E quanto ao debate sobre uma nova política industrial que contemple eficiência energética, fortalecimento da cadeia produtiva e mobilidade, itens associados à ciência, inovação e tecnologia?

Estamos começando a conversar com o governo sobre a política industrial que virá após 2017. A primeira coisa que precisamos fazer é uma avaliação muito profunda do programa que existe hoje, o Inovar-Auto (criado pela Lei n° 12.715/2012, com validade até 2017). Ele trouxe contribuições substanciais em termos de eficiência energética e incentivos à pesquisa e desenvolvimento (P & D) no setor. O Inovar-Auto garantiu uma série de pontos positivos, mas consideramos a necessidade de fortalecer a cadeia de fornecedores, porque a queda do mercado fragilizou o setor de autopeças. Precisamos reforçar alguns pilares fundamentais: a pesquisa e desenvolvimento para que a inovação possa acontecer no País com maior qualidade e quantidade; a eficiência energética, porque houve um grande investimento na indústria para a modernização dos veículos; e a cadeia de autopeças.

O setor discute a questão da mobilidade urbana, que se tornou crucial para as cidades?

É preciso promover a mobilidade urbana inteligente, que integre os diferentes meios de transporte para facilitar a vida dos usuários e também permitir maior fluidez no tráfego. A Anfavea representa as fabricantes de automóveis, comerciais leves, máquinas agrícolas, caminhões e ônibus e, exatamente por conhecer esses diferentes tipos de veículos, acreditamos que temos muito a contribuir. Uma das ideias é o estabelecimento de política de sustentabilidade veicular, com o objetivo de redução contínua das emissões, e também estruturar e estender a inspeção técnica veicular para todo o País, para incentivar a correta manutenção dos veículos e aumentar a segurança no trânsito.

Qual a perspectiva do setor para a engenharia brasileira?

Esse profissional é fundamental no Inovar-Auto e em qualquer mudança que se pretenda fazer na política industrial do País. Pesquisa e desenvolvimento são decisivos para quem quer ter uma indústria automotiva real. Hoje temos centros de desenvolvimento instalados em várias das nossas empresas, com ligação mundial, e é importante que a gente use essa capacidade já instalada para produzir inovação e tecnologia, que é a forma de empregar os nossos engenheiros e inserir a nossa indústria no mundo como grande geradora de tecnologia.

Como está o projeto do carro nacional?

É difícil falar sobre isso, porque hoje as empresas são todas multinacionais. Temos procurado produzir veículos com nível tecnológico internacional. Não vejo ninguém pensando em alguma coisa só para o mercado brasileiro, mesmo porque o mundo hoje é globalizado e precisamos pensar em estarmos inseridos à cadeia mundial de valor. Já temos muita capacitação local para gerar tecnologia e produtos que possam ser desenvolvidos aqui para serem utilizados em vários países. O importante é que os produtos que sejam desenhados e colocados no mercado nacional atendam à demanda do consumidor brasileiro.

A Anfavea assinou o documento “Compromisso pelo desenvolvimento”, lançado em dezembro de 2015, que propugna eixos para evitar a recessão no País, como o estimulo à geração de empregos, oferta de crédito e investimentos para fomentar a produção nacional. É uma proposta ainda endossada pela associação?

É uma proposta atual, porque ela traz vetores que são fundamentais à retomada econômica. Todavia, temos de adequá-la à realidade governamental existente hoje no País.

Recentemente, a FNE lançou o movimento “Engenharia Unida”, com chamada à coalizão de forças para oferecer saídas às dificuldades enfrentadas pelo País e contribuir com o permanente avanço no futuro.

Importante ver que os profissionais estão se mobilizando e entendem o momento. A engenharia já passou por uma fase muito complicada, mas conseguiu se fortalecer como um potencial gerador de tecnologia que estava faltando ao Brasil. Dentro do setor automotivo, com essa política industrial em discussão, queremos garantir condições de desenvolvimento à engenharia local. Várias das nossas empresas, ao longo dos últimos anos, desenvolveram trabalho para produtos que não seriam comercializados internamente, utilizando a capacitação dos nossos engenheiros e instalações. É importante que estejamos inseridos no mundo do conhecimento.

 

Rosângela Ribeiro Gil

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