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O balanço das negociações salariais de 2015, realizado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), apresentou resultados de reajustes iguais ou abaixo da variação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Neste cenário, ao qual se soma a crise política, qual a perspectiva para os trabalhadores em 2016? Sobre esse quadro, o diretor técnico do Dieese, Clemente Ganz Lúcio, falou ao Engenheiro. Ele acredita na preservação do emprego como agenda essencial e ressalta a importância do documento “Compromisso pelo Desenvolvimento”, assinado por entidades sindicais e representantes do empresariado.

 

Com o atual cenário político e econômico, que afeta bastante as pautas do mundo do trabalho, o que deve nortear a luta dos trabalhadores?

As restrições econômicas geram severas dificuldades para sustentar e promover direitos, para aumentar salários e preservar empregos. Isso torna a agenda da retomada do crescimento fundamental, e é importante que o trabalhador tenha a preo­cupação se o seu sindicato está atuando nesse sentido. Frente ao contexto presente, de restrição, as empresas tendem a diminuir os postos de trabalho. E isso tem que ser evitado. O trabalhador deve atuar, com os sindicatos, para a proteção do emprego, que tem efeito de preservar também o mercado interno e parte da nossa dinâmica econômica. Se não há emprego, diminui a capacidade de compra e, consequentemente, a receita do Estado, prejudicando ainda mais a economia. Então a proteção do emprego é um fator importante para o trabalhador, para a empresa e para o próprio governo, sendo esta a luta inicial e prioritária para o momento.

O Dieese obteve resultados de reajustes negativos no ano de 2015, que se igualaram ou ficaram inferiores à variação do INPC/IBGE. Qual a previsão para este ano?

Este ano também será adverso, pois a atividade econômica ainda está se estruturando de forma recessiva, ou seja, vem diminuindo nos primeiros meses. Mesmo assim, creio que qualquer que seja o desfecho dessa crise política, é possível uma maior estabilidade. Evidente que nós temos que lutar para que a saída seja de convergência do ponto de vista de reunir capacidades para uma retomada da atividade governamental orientando o desenvolvimento. Se isso acontecer, poderemos ter um desempenho um pouco melhor no segundo semestre. Em 2015, tínhamos um cenário de inflação alta que resultou em um número menor de aumentos salariais, diminuiu também as negociações que conseguiram repor a inflação e mesmo os que conseguiram algum tipo de aumento, foi de 1%. Para 2016, no entanto, a tendência da inflação é declinante. A condição é melhor para o trabalhador e para as empresas. É preciso equilíbrio nas negociações para superar a adversidade, que será o desemprego. O momento agora é de olhar para a retomada do crescimento, de preservar os empregos e, evidentemente, de preservar o máximo dos direitos, mostrando o quanto tudo isso contribui para o fortalecimento do mercado interno. E o fato de ser ano eleitoral pode até ajudar, pois os governos municipais tentam concluir um conjunto de obras e investimentos, além da atividade eleitoral gerar uma demanda no setor de serviços, contribuindo ao mercado de trabalho.

Como os sindicatos podem se preparar para negociar bem em um ano com essas adversidades?

É preciso construir uma estratégia de negociação assentada numa boa leitura da realidade, em um bom entendimento de qual é o anseio da categoria e em uma conjunção desses dois movimentos. E a partir desse debate, trilhar o caminho das campanhas salariais. Um contexto de adversidade exige do sindicato uma capacidade de negociação muito mais sofisticada para combinar, diante das restrições, a preservação do direito que a categoria considera importante e a evolução daqueles que já estavam em negociações anteriores.

Em entrevista recente, o senhor disse que o sindicalismo deve ser proativo. O “Compromisso pelo Desenvolvimento” pode ser considerado um exemplo disso?

Sim, o “Compromisso pelo Desenvolvimento” é um exemplo de proatividade que os sindicatos devem ter. É um documento que se originou da iniciativa do movimento sindical em conjunto com o setor empresarial, visando retomar e sustentar o crescimento. O documento foi apresentado ao governo e surgiram propostas como o programa “Brasil mais Produtivo”, que dá subsídios a 3 mil indústrias de pequeno e médio porte até o fim de 2017, para que a produtividade dessas aumente em pelo menos 20%. O “Compromisso pelo Desenvolvimento” é uma microexperiência bem-sucedida de que é possível um nível de entendimento entre trabalhadores e empresários e esses, em conjunto, tentem construir com os governantes estratégias para conduzir planos voltados ao crescimento e desenvolvimento do País.

Neste cenário, como fica o trabalho do Dieese?

Intensifica o nosso trabalho para produzirmos diagnósticos fazendo a observação do comportamento da realidade e transformando esse comportamento em números como taxa de desemprego, aumentos salariais, entre outros. Além de fazer uma leitura da realidade, o desafio que é colocado ao Dieese pelo movimento sindical é de atuar, como foi no caso do “Compromisso”, ajudando a elaborar propostas. Gerar desenvolvimento significa fazer com que o crescimento econômico crie bem-estar social, que as pessoas tenham qualidade de vida e equilíbrio ambiental. É para isso que realizamos as pesquisas. Esse é um desafio não somente do Dieese e dos sindicatos, mas de todos os trabalhadores. 

 

Jéssica Silva e Fábio Pereira