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Cresce Brasil

O Brasil por meio do Programa Nacional de Imunizações (PNI), do Ministério da Saúde, se transformou em referência mundial em vacinação. Tal conquista se deu tanto pela qualidade das vacinas produzidas quanto pela espetacular cobertura vacinal estruturada atingida. Há de salientar, enfaticamente, que muito antes da pandemia de Covid-19 o Brasil seguia rumo à autoeficiência na produção de vacinas dado que mais de 70% das vacinas utilizadas no PNI eram produzidas no próprio Brasil.

Vacina - Divulgação/Governo de São Paulo-SPMas, em um mundo dos absurdos recorrentes ouve-se idiotices de todas as formas a todo momento em qualquer lugar as quais vêm seguidamente minando o processo vacinal como um todo. Tal é o caso, por exemplo, da repetição insana de frases tais como: "crianças já nascem imunes e assim não necessitam ser vacinadas”, “não é necessário vacinar porque as doenças antigas não existem mais”, “vacinas são perigosas para crianças, “somente no meu tempo era necessário se vacinar”, “vacinas são procedimentos para marcar rebanhos”.

Mas, a despeito das inúmeras inconsequências e tanto negacionismo em torno do processo de vacinação como processo para se garantir o bem social o Brasil, em particular, por intermédio do PNI, foi pioneiro na incorporação de várias vacinas no calendário do Sistema Único do Saúde (SUS) e se transformou em um dos poucos países do mundo a ofertar de forma geral e eficiente uma diversidade extensa e muito abrangente de vacinas no país (um país que foi subdesenvolvido no campo da vacinação por muito tempo). Pode-se dizer que a elevada taxa de cobertura de vacinação do PNI e a correspondente eficácia da logística bem caracterizavam a qualidade da vacinação no Brasil.

Todavia, o sucesso do PNI associado ao atual e crescente negacionismo sobre o ato de se vacinar, embora contraditórios entre si, podem estar promovendo problemas sérios quanto à manutenção da excelência na continuidade da imunização das pessoas no Brasil (por mais absurdo que possa parecer).

Veja-se, por exemplo, que as pessoas que têm hoje entre 30 e 50 anos de idade participaram amplamente nas suas infâncias do processo de vacinação quando doenças graves como sarampo, poliomielite, difteria, febre amarela, causavam elevado número de vítimas contaminadas e grande contingente de mortes. No entanto, os filhos destas mesmas pessoas que foram beneficiados com a vacinação e que não conviveram com aquelas doenças hoje apresentam baixa preocupação em vacinar as crianças (seus próprios filhos) achando que aquelas doenças do tempo de seus pais desapareceram. Por não terem vivido o drama da contaminação se transformaram em ignorantes sobre a necessidade constante da imunização. É assim, em parte, que nasce o negacionismo sobre a necessidade de se continuar a vacinar as crianças. Estes adultos hoje que foram vacinados quando crianças não conseguem reconhecer a importância da imunização tornando-se, em muitas das vezes, opositores gratuitos do processo de imunização.

Conquanto seja desnecessário repetir o óbvio, mas a conscientização sobre a importância da vacinação deve continuar a ser passada de pai para filho, de filho para neto e assim sequencialmente, geração após geração; pois jamais a humanidade estará livre de contaminações por vírus ou bactérias. A história deve ser contada sempre para os mais novos.

Neste sentido, somente para chamar um exemplo, todos necessitam saber que o sarampo é uma doença infecciosa aguda e viral com elevado grau de contágio cuja evolução é bem rápida e muito perigosa para as crianças. O sarampo pode causar séria infecção nos ouvidos, pneumonia, convulsões, grave lesão cerebral e a morte muito facilmente. O mais preocupante quanto ao sarampo é que as complicações de saúde são, possivelmente, desencadeadas pelo próprio vírus do sarampo atingindo na maior parte das vezes mais gravemente recém-nascidos, pessoas desnutridas e aqueles que possuem problemas no sistema imunológico.

Então, não tem conversa fiada, nada de mimimi, sem palhaçada, tem que vacinar as crianças contra o sarampo sim, como, aliás, contra todas as doenças que podem acometer as crianças. Não é porque na geração anterior os pais foram vacinados que os filhos destes mesmos pais estão livres de pegarem e, possivelmente, morrerem por doenças cujas vacinas já há muito acometeram milhões.

Mas, o negacionismo sobre as vacinas é fruto, também, e mais intensamente, da falta de informação circulante além, é claro, da ignorância sobre a vacinação e sobre sua eficácia das vacinas na salvação de vidas já comprovada ao longo de muito tempo e de muitas gerações.

Adeptos da desinformação e guiados pelo medo os negacionistas procuram, também, boicotar a vacinação e, de propósito, sem a menor responsabilidade, se comportam de forma contrária ao recomendado pela comunidade médica contribuindo negativamente para a ampliação das crises sanitárias tipo a da pandemia de Covid-19.

Todavia o negacionismo (que consiste em recusar e negar alguma realidade comprovada) não é uma novidade recente e única. Períodos já existiram nos quais até autoridades negaram fortemente tanto avanços científicos quanto reflexões filosóficas. Muitos filósofos e cientistas foram mortos na fogueira para serem calados, diversos estudiosos tiveram seus trabalhos destruídos, banalizados ou proibidos de divulgação.

É sabido, por exemplo, que o grego Eratóstenes de Cirene (276 a.C. - 194 a.C.) já considerava a Terra uma esfera e mediu sua circunferência. Mas, negacionistas de plantão, chamados terraplanistas, os quais como todos os negacionistas que sempre distorcem a verdade para “justificar o injustificável”, dizem ser a Terra plana (a despeito das claras evidências que comprovam não ser a Terra plana).

Absurdo por absurdo, embora pareça até uma piada sem graça, existem negacionistas de plantão que defendem que não se deve utilizar placas solares para captar a luz do sol para gerar energia solar fotovoltaica porque estes objetos acabarão “sugando toda a energia solar e aí acabarão matando todas as plantinhas que não terão mais a luz do sol para viver”.

A regra é muito simples: se uma doença é erradicada em uma determinada localidade e se nesta mesma localidade é interrompido o processo de vacinação, aquelas mesmas doenças voltarão a contaminar e a matar uma vez que os vetores causadores poderão vir de outros locais (regiões internas do país ou externamente de outros países) onde a doença ainda existe. O mundo está globalizado e a disseminação de doenças é, também, globalizada. Então, não tem conversa: criança tem que ser vacina sempre.

Voltando à questão dos fatores que estão promovendo a diminuição da cobertura vacinal no Brasil não se pode esquecer, também, que se tem desenvolvido de anos para cá uma séria falta de integração entre serviços que deveriam privilegiar a continuidade do acompanhamento dos cuidados da saúde dos cidadãos e as necessárias ações de vigilância, prevenção e promoção de campanhas vacinais. São apenas em momentos críticos ou agudos, como o da pandemia de Covid-19, por exemplo, que se dá atenção ao que previamente deveria já ter sido realizado. Quando as crises são deflagradas não se tem, então, sequer condições logísticas para atender os cidadãos com leitos, medicamentos, ambulâncias, insumos, corpo clínico, dentre outras necessidades como se tem observado infelizmente.

Atualmente no Brasil existem 19 vacinas as quais servem para combater efetivamente 20 doenças e todas são oferecidas pelo SUS a todas as pessoas de quaisquer faixas etárias. A história já comprovou que a vacinação é o método mais eficaz de prevenção de doenças infecciosas, sendo a imunidade generalizada (gerada pela vacinação) responsável ou pela erradicação ou restrição de doenças em várias partes do mundo, mas para que o sistema de vacinação funcione todos os processos associados devem funcionar também.

A vacinação que corresponde à administração de vacinas e a correspondente eficácia devem ser amplamente estudadas ano após ano, sendo a necessária verificação dos resultados outra exigência a ser acompanhada seguidamente.

Tipicamente, em resumo, uma vacina é “uma preparação biológica que fornece imunidade adquirida ativa para uma doença particular”, ou seja, vacina é uma substância produzida (artificialmente) que ao ser aplicada no corpo das pessoas gera no sistema imunológico ou uma resposta de proteção contra um agente patógeno que pode comprometer o organismo humano, como vírus e bactérias, causando enfermidades.

Seria ingenuidade pensar, entretanto, que não existem limitações para a eficácia das vacinas. As vacinas podem sim falhar por diversos fatores. Se, por exemplo, o sistema imune do indivíduo não consegue responder à vacina a correspondente proteção esperada não será atingida; sendo vários os fatores que geram falha na resposta imune devido às comorbidades adquiridas ou mesmo devido às deficiências na imunidade adquiridas de forma hereditária.

Outras vezes a vacina não funciona adequadamente porque fatores genéticos tornam o sistema imune da pessoa não ineficiente, mas muito lento. Nestes casos, mesmo que o organismo desenvolva os anticorpos estes não têm o tempo suficiente para destruir o patógeno completamente. Mas, são casos pontuais; em geral raros. O normal é que a vacinação consegue estabelecer muito baixa taxa de mortalidade e baixa morbidade, promovendo plena recuperação. Ressalte-se, também, que os benefícios da vacinação superem, em muito, quaisquer possíveis riscos ou mesmo efeitos graves após a imunização.

Contudo, existem, também, outros fatores externos que contribuem para que as vacinas não tenham pleno êxito. Um deles são os movimentos contra o uso de vacinas que se intensificam de forma absurda com o passar dos tempos. Entretanto, nas crises como a da pandemia de Covid-19 se evidenciam outras dificuldades inda maiores que impedem o sucesso dos processos de imunização como é o caso daquelas geradas por questões de gestão ou política.

A despeito da reconhecida excelência do PNI em imunização é preocupante, por exemplo, que o Brasil tenha uma gestão da pandemia de covid-19 tão complicada possibilitando-se um número de infectados e de mortes pela Covid-19 tão elevado. No momento da redação deste texto, em número total de mortes, o Brasil perdia apenas para os Estados Unidos.

Inúmeros fatores, entretanto, podem justificar o agravamento das crises geradas pela pandemia de Covid-19 não somente no Brasil, mas em diversos países bem mais desenvolvidos que o Brasil. Mas, em geral, ficou demonstrado que países com populações menores, cujas sociedades sejam mais bem estruturadas e possuam instituições com melhores treinamentos conseguiram mais adequadamente administrar ou mitigar os inúmeros problemas gerados pela pandemia de Covid-19 como, aliás, já o fizeram muito bem em crises globais anteriores. Apreender com os aprendizados é, também, fundamental.

Todavia, o Brasil já começa a desenvolver vacina nacional contra a Covid-19. Utilizando a expertise adquirida em mais de cem anos de estudos e desenvolvimentos o Brasil domina diferentes plataformas para produção de diversas vacinas. Atualmente, os estudos e pesquisas para a produção nacional de vacinas contra a Covid-19 estão centradas na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e no Instituto Butantan.

A Fiocruz iniciou suas atividades em 25 de maio de 1900 a partir da criação do Instituto Soroterápico Federal, na Fazenda de Manguinhos, Zona Norte do Rio de Janeiro, quando começou a fabricar soros e vacinas contra a peste bubônica. À frente do difícil trabalho de erradicação da epidemia de peste bubônica e febre amarela estava o cientista, médico, bacteriologista, epidemiologista e sanitarista brasileiro Oswaldo Gonçalves Cruz (1872-1917) que se tornou referência mundial no estudo das moléstias tropicais e da medicina experimental.

Em 1899 para conter, também, o surto de peste bubônica que se alastrava a partir do Porto de Santos foi criado na Fazenda Butantan (a oeste da Cidade de São Paulo) um laboratório de produção de soro que ficou associado ao Instituto Bacteriológico (atual Instituto Adolpho Lutz). Aquele laboratório, a partir de 23/02/1901, passou a constituir o Instituto Serumtherápico (hoje Instituto Butantan) o qual teve como primeiro diretor o cientista, médico, imunologista e pesquisador biomédico Vital Brazil Mineiro da Campanha (1865-1950) o qual, também, ficou reconhecido internacionalmente pelos importantes estudos dos problemas de saúde pública.

Mais de um século depois de suas fundações tanto o Instituto Butantan quanto a Fiocruz continuam sendo reconhecidos mundialmente como centros de excelência em pesquisa biomédica, produção de imunobiológicos e divulgação de trabalhos de inovação técnico-científica na área de imunizantes.

Conforme divulgado a Fiocruz já começou a entregar ao PNI lotes de vacinas contra Covid-19 produzidas 100% na instituição. As vacinas estão sendo produzidas no Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos/Fiocruz). Um importante passo para que o Brasil continue a manter sua expertise no campo da imunização e para imunizar e salvar milhões de vidas.

Mas, mesmo produzindo vacinas ou recebendo vacinas de fora do país continuam sendo necessárias fortes campanhas constantes e contínuas sobre a eficácia das vacinas para a prevenção de doenças e para salvar vidas. Campanhas nacionais bem estruturadas devem ser mantidas explicando a segurança das vacinas e mostrando que os benefícios da imunização são infinitamente maiores que quaisquer mínimos efeitos colaterais. As campanhas devem enfatizar que as vacinas são seguras, que são monitoradas constantemente e que não oferecem ricos à saúde.

As campanhas devem mostrar, também, estatísticas sobre os resultados já obtidos pela vacinação ao longo do tempo enfatizando que diversas doenças “evitáveis” ​​pelo uso de vacinas podem sim levar as pessoas à morte caso se faça a opção por não as tomar. Esclarecer que as vacinas são benéficas para a humanidade e que sem as vacinas muito mais doenças e mortes ocorreriam.

Claro que apenas boas e consistentes campanhas de esclarecimento sobre as vantagens da imunização não bastam por si só. São necessários, também, a manutenção dos estudos e pesquisas de alto nível tanto para garantir a eficácia das vacinas quanto para estabelecer sistemas de segurança rigorosos quanto à produção das vacinas seguindo-se os padrões internacionais estritos existentes.

Políticas regulatórias e de saúde pública centradas em seguidas revisões sobre a eficácia, a abrangência e a segurança antes que uma vacina seja introduzida em um programa nacional de imunização são, também, necessárias.

Mas, de nada adiantariam as boas campanhas de conscientização sobre a necessidade da vacinação para salvar vidas, a continuidade dos estudos e pesquisas de excelência para a produção das vacinas ou a definição dos marcos regulatórios sobre a vacinação se não existir um eficiente plano logístico de distribuição e aplicação das vacinas em todas as regiões do país.

E neste sentido a infraestrutura de distribuição e de aplicação de vacinas no Brasil por meio do SUS em associação com o PNI é excepcional. Por conta de toda a logística já desenvolvida no Brasil a campanha de vacinação da Covid-19 no Brasil já se mostra melhor que em outros países com dimensões continentais.

A coordenação das campanhas de imunização que existe no Brasil em nível nacional é incrível. O Brasil tem com SUS e o PNI uma simbiose fantástica que desde 1973 já conseguiu erradicar uma série de doenças com a vacinação em massa tais como varíola, poliomielite (paralisia infantil), tétano e difteria.

Mantendo-se e aprimorando-se cada vez mais a expertise na logística de aplicação das vacinas, somando a produção de vacinas nacionais contra a Covid-19 e agregando a aquisição de outras vacinas produzidas por distintos laboratórios no mundo, em questão de poucos meses a chamada vacinação de rebanho será possivelmente atingida no Brasil.

Veja-se que o mundo tem oficialmente 193 países e destes, até o dia 24/03/2021, cerca de 130 países não aplicaram uma única dose de vacina contra Covid-19. O Brasil naquela data se destacava como o quinto país que mais aplicou as correspondentes vacinas.

Outro dado pouco considerado é que o Brasil na relação vacinados/habitantes vem apresentando seguidamente percentuais maiores que os percentuais do mundo. A população do Brasil é estimada em 211,8 milhões de habitantes e o mundo tem cerca de 7,78 bilhões de pessoas. No mesmo dia 24/03/2021, o Brasil havia vacinado 7,18% de sua população enquanto o mundo vacinou apenas 6,11%; registrando mais de um ponto percentual de vantagem.

Mas, por outro lado, no mesmo Brasil, como em todo o mundo, a velocidade com a qual a vacinação vem sendo desenvolvida está muito aquém da necessária para a eliminação da pandemia brevemente. O número de mortes no Brasil a cada 24 horas é assustador. Tanto em número de pessoas infectadas quanto em número de óbitos o Brasil somente está perdendo para os Estado Unidos.

Seja como for, o Brasil e o mundo vão vencer sim a Covid-19 por intermédio da vacinação. A humanidade sempre venceu os vírus e as bactérias com as vacinas; não será diferente com a pandemia de Covid-19.


* Carlos Magno Corrêa Dias é professor, pesquisador, conselheiro efetivo do Conselho das Mil Cabeças da CNTU, conselheiro sênior do Conselho Paranaense de Cidadania Empresarial (CPCE) do Sistema Fiep, líder/fundador do Grupo de Pesquisa em Desenvolvimento Tecnológico e Científico em Engenharia e na Indústria (GPDTCEI), líder/fundador do Grupo de Pesquisa em Lógica e Filosofia da Ciência (GPLFC), personalidade empreendedora do Estado do Paraná pela Assembleia Legislativa do Estado do Paraná (Alep).

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