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Alguém me contou que uma respeitada e experiente dirigente sindical acossada pelos problemas, confidenciou em sua rede social que “dorme, dorme, dorme e não consegue descansar”.

\Ilustração|: Otimismo, de  J.V. Santos, em Rabiscos Enquadrados, CC 4.0\Ilustração|: Otimismo, de J.V. Santos, em Rabiscos Enquadrados, CC 4.0Este é, sem exagero, o estado de espírito que está assombrando uma legião de dirigentes com as dificuldades das campanhas salariais e até mesmo pelo temor de que o resultado destas – que coincidem temporalmente com as campanhas eleitorais – confundam de tal modo os trabalhadores que levem alguns deles a aceitarem alternativas políticas esdrúxulas e autoritárias que seriam um suicídio classista.

Mais que nunca se torna necessário aceitarmos o conselho de Antonio Gramsci que recomendava aliar o pessimismo da inteligência ao otimismo da vontade.

Os dados factuais são amedrontadores. Uma recessão continuada e renitente destroçou milhões de empregos formais e derrubou os salários fazendo que a indústria e, em seguida a ela quase todos os setores, amargasse uma desarticulação brutal.

Para dificultar ainda mais as coisas está em vigor a lei trabalhista celerada que produziu de uma só tacada três efeitos mortais para a defesa dos direitos e dos interesses dos trabalhadores: a dificuldade do acesso à Justiça do Trabalho, o bloqueio das negociações coletivas e o exaurimento dos recursos sindicais.

O encavalamento da recessão e da lei celerada tem provocado nos trabalhadores (principalmente em suas lideranças e em seus ativistas) uma preocupação sem precedentes onde se casa o medo de perder o emprego, a desorientação nas campanhas salariais e a pouca disposição a uma resistência que parece ser irrealizável a curto prazo.

Os trabalhadores das bases percebem como é difícil a situação, transferem para os sindicatos toda a responsabilidade da luta, mas desconfiam deles e de sua capacidade.

Neste quadro lastimável para as lutas estritamente sindicais – associado no tempo às campanhas eleitorais em curso – as direções sindicais, responsáveis maiores pelos destinos imediatos da luta dos trabalhadores, procuram cumprir suas responsabilidades do mesmo modo e com o mesmo empenho que demonstraram nos últimos anos em que a conjuntura lhes era favorável e em que contaram com recursos para tanto. Agora transmitem para os trabalhadores toda a perplexidade e a aflição que as assola.

E, no entanto, é preciso muito mais que “cumprir tabela”; é preciso unir, organizar e resistir de modo a superar esta fase má da luta estritamente sindical com resultados salariais satisfatórios e com a defesa dos direitos trabalhistas e sindicais atacados sem piedade, valorizando-se os resultados positivos por ventura obtidos por algumas categorias em campanha.

 João Guilherme Vargas Netto é analista político e consultor sindical da FNE

 

 

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