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O mundo acordou empobrecido hoje. Stephen Hawking partiu. Cambridge nunca mais verá aquela figura esquálida, quase líquida, cruzando seus jardins em sua cadeira de rodas. Mais de 50 anos atrás, quando ingressou como estudante de física na Universidade de Oxford, seria impossível que alguém antecipasse o que se tornaria: cientista genial, ícone de superação humana, celebridade mundial.

Stephen Hawking nasceu em 1942, trezentos anos após a morte de Galileu. Um quarto de século depois, já diagnosticado com uma doença muscular degenerativa, defendia sua tese de doutorado em cosmologia na Universidade de Cambridge, aproveitando-se de técnicas matemáticas recém introduzidas por Roger Penrose, outro grande físico-matemático inglês. Mas as maiores contribuições de Hawking se dariam após seu doutorado, quando suas atenções se voltaram, então, para os objetos mais exóticos do cosmos: os buracos negros.

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Os buracos negros são regiões de puro vácuo com campo gravitacional tão intenso que nem mesmo a luz pode escapar de suas imediações. Apesar de esses corpos terem sido preditos pela relatividade de Albert Einstein, até mesmo seu criador duvidava que pudessem existir na natureza. Hoje, os buracos negros são uma realidade, mas, na época em que Hawking se interessou por eles, a única evidência a favor era o fato de nunca terem sido observados. Hawking era um deles e, em 1971, já debilitado pela doença, demonstrou que buracos negros seriam virtualmente indestrutíveis. Pelo menos era o que a relatividade geral indicava.

Mas nova reviravolta se daria três anos depois. Seu corpo frágil escondia a alma rebelde de um revolucionário científico. Ao voltar a analisar o processo de formação de buracos negros aos olhos da física quântica, Hawking concluiu que um tênue fluxo de partículas elementares era emitido de suas imediações. A energia que escapava fazia com que o buraco negro literalmente evaporasse.

Recebido com ceticismo no início, o efeito descoberto por Hawking tem sido corroborado teoricamente desde então e inspirado outras grandes descobertas. Infelizmente, esse efeito é muito sutil para ser observado diretamente na natureza com a tecnologia atual, o que o impediu de ganhar o Prêmio Nobel. Mas em 1979, recebeu uma honraria ainda mais rara ao assumir a cátedra de Professor Lucassiano da Universidade Cambridge, anteriormente ocupada pelo inigualável Isaac Newton.

A partir daí, com sua carreira científica já bem estabelecida, alça novos voos e lança em 1988 o grande best-seller Uma Breve História do Tempo, transformando-se em uma celebridade mundial. Em 2004, quando surgiu vestido de preto junto com seu staff na conferência internacional de relatividade geral em Dublin, na Irlanda, para anunciar sua tentativa - que mais tarde se mostrou frustrada - de explicar a perda da informação em buracos negros, já recebia da mídia tratamento apenas dispensado a pop stars. Nessa altura, a figura de Hawking era fonte em si de fascínio para um público que dificilmente entendia qualquer uma de suas ideias.

O anúncio da morte de Stephen Hawking, por mais previsível que fosse, soa paradoxalmente como algo insólito. Estávamos acostumados a vê-lo driblar a morte para lembrarmos que ele também era humano. Mesmo assim, encontrou uma forma triunfal de partir. Não podendo agarrar-se à vida para sempre, deixou-a quando já havia se feito imortal. Obrigado por tudo, professor Hawking.


George Matsas é professor do Instituto de Física Teórica da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Texto reproduzido a partir do site da Agência Unesp de Notícias (UnAN)

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