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“E quando (os seres humanos) tiverem conquistado todas as profundezas do espaço e todos os mistérios do tempo, ainda assim será um iniciante.” H. G. Wells (1866-1946) (1)

O fato ainda não foi noticiado no Brasil. A quem interessa a ciência em nosso país? Mas a verdade é que o teletransporte quântico a magnas distâncias deixou de ser ficção científica. É o que contam Alina Polyanina, da agência russa Sputnik, e Scott Kelly, da NASA, em texto de 30 de setembro de 2017. Vamos ao que (não) interessa.

“As novas tecnologias de transmissão de dados quânticos dependem do fenômeno do emaranhamento quântico”, explicam especialistas. Isso significa “preparar um par de partículas gêmeas – geralmente fótons – para misturar intimamente suas propriedades: qualquer alteração no estado de um quantum modificará o outro de fato, não importa a distância a separá-los”. 

E mais: “Tais partículas duplas atuam como entidade única, embora possam ser separadas fisicamente.” O fenômeno, acrescentam, desempenha papel importante em sistemas de comunicação com segurança total e completa. As informações transmitidas não podem ser interceptadas e violadas. 

Por que fótons? Porque são minúsculas partículas elementares que constituem a luz. O fóton não tem massa de repouso. Ele não pode estar em repouso, surge com velocidade da própria luz. Sua massa é determinada quando se igualam as equações – massa em movimento e movimento muito rápido. 

O satélite chinês Mozi, lançado em agosto de 2016, é a primeira espaçonave com comunicação quântica. China e Áustria promoveram entre si a primeira videoconferência da história, sob a guarda rigorosa da criptografia quântica, uma invenção extraordinária decorrente do desenvolvimento da criptografia. Foi um acontecimento excepcional. 

A criptografia quântica garante, como nenhuma tecnologia antes criada, uma comunicação absolutamente segura. Graças a ela, emissores e receptores podem criar e partilhar a chave secreta para criptografar e decifrar suas próprias mensagens. 

A inédita experiência de comunicação ultra segura de transporte quântico intercontinental entre Pequim e Viena ocorreu em 29 de setembro, sexta-feira, por cientistas chineses e austríacos – noticiou a Academia Chinesa de Ciências. A pesquisa foi liderada pelos acadêmicos Chunli Bai, chinês, e Anton Zeilinger, austríaco.

Informa a Academia: “Conseguimos dar três passos para a criação da Internet quântica – um ano após o lançamento do satélite Mozi (Micius). Conseguimos transmitir chaves [codificação e decodificação de satélites] na Terra ao longo de uma distância de 1.200 km, ligando dois pontos na superfície da Terra à mesma distância e conduzindo os primeiros experimentos orbitais de teletransmissão quântica. Melhoramos a qualidade da comunicação em relação às fibras ópticas em 20 vezes”.

Micius é a versão latina de Mozi – Mozi é o nome chinês (墨子) dado ao satélite quântico em homenagem a um legendário cientista e filósofo chinês, anterior a Confúcio. Micius é a versão de Mozi para o Latim. O novíssimo satélite é operado pela Academia Chinesa de Ciências, com base em estações espaciais terrestres da China.

A China montou ampla rede de comunicação quântica terrestre, ligando ao Mozi as cidades de Pequim, Xangai e muitas outras do país. Os cientistas austríacos criaram um sistema interno similar, conectando a capital Viena e a cidade de Graz, mais ao sul da Áustria. São cidades industrializadas, que agora contam também com centros de comunicação quântica espacial. A Áustria, sede do Comitê das Nações Unidas para o Uso Pacífico do Espaço Exterior (UNCOPUOS), assinou e ratificou todos os cinco tratados das Nações Unidas que regulam as atividades espaciais. 

A Academia Chinesa de Ciências anunciou para breve a realização de outras videoconferências sobre teletransporte quântico. Já estão convidados acadêmicos e cientistas da Rússia, Singapura, Itália e Alemanha.

Trata-se de cooperação internacional espacial do mais alto nível. Não inclui necessariamente transações comerciais, nem compra e venda de patentes. Como diz a propaganda do Banco Itaú: “@issomudaomundo”. O Tratado do Espaço de 1967, lei maior das atividades espaciais, consagra o princípio em seu Artigo I: “A exploração e o uso do espaço cósmico, inclusive a Lua e demais corpos celestes, devem ter em mira o bem e o interesse de todos os países, seja qual for o estágio de seu desenvolvimento econômico e científico, e são incumbência de toda a humanidade”.

“Ciência sem humanidade” é um dos “sete pecados sociais”, escreveu em 1925 Mahatma Gandhi (1869-1948) líder da independência da Índia, no artigo Jovem Índia.

*José Monserrat Filho, vice-presidente da Associação Brasileira de Direito Aeronáutico e Espacial (SBDA), ex-chefe da Assessoria de Cooperação Internacional do Ministério da Ciência e Tecnologia (2007-2011) e da Agência Espacial Brasileira (AEB) (2011-2015), diretor honorário do Instituto Internacional de Direito Espacial, e membro pleno da Academia Internacional de Astronáutica. Foi diretor da revista Ciência Hoje e editor do Jornal da Ciência, da SBPC, é autor de Política e Direito na Era Espacial – Podemos ser mais justos no Espaço do que na Terra?, Vieira & Lent Casa Editorial, 2017. E-mail: <Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.;.

 José Monserrat Filho é vice-presidente da Associação Brasileira de Direito Aeronáutico e Espacial (SBDA), para o Jornal da Ciência

Referência

1) Herbert George Wells, clássico da ficção científica, escreveu A Máquina do Tempo, O Homem Invisível e A Guerra dos Mundos, hoje famosas no mundo inteiro. Outros romances, de natureza não fantástica, foram bem recebidos, a exemplo de sátira à publicidade de certos aristocratas britânicos. Analisando as diferenças entre natureza e educação, Wells questiona a humanidade em A Ilha do Dr. Moreau e outros livros.

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