Tecnologia para a casa própria
Lucélia Barbosa
Para atacar um dos problemas sociais mais graves do País, a falta de moradias, que atinge 7,2 milhões de famílias, além de recursos e políticas públicas, uma ferramenta é fundamental: métodos construtivos avançados, que garantam rapidez na execução, padronização e qualidade. Assim, lembram especialistas, para colocar de pé o programa “Minha casa, minha vida”, que prevê 1 milhão de unidades novas, o Governo Federal deverá ter isso em mente. Uma alternativa a ser seguida, afirmam, é a construção indus­trializada, na qual as estruturas podem ser feitas em aço ou concreto, mas as peças são fabricadas separadamente e levadas ao canteiro de obras apenas para a montagem e acabamento final.
Segundo o professor Pedro Saurin, do Departamento de Estruturas e Construção Civil da UFSM (Univer­sidade Federal de Santa Maria), no Rio Grande do Sul, o processo garante pra­zos menores. “É muito ágil, em poucos dias dá para ver o resultado. Além disso, a obra fica mais limpa e organizada, evitando o acúmulo de resíduos, tão prejudicial ao meio ambiente, e ainda ganha com o não desperdício de materiais, que chega a 25% no sistema convencional.” Além disso, apresenta vantagens em relação à racionalização de mão de obra, resistência ao fogo, menor uso dos recursos de jazidas naturais, como água e energia, minimização do risco de acidentes de trabalho e aumento da vida útil das construções.
De acordo com a diretora executiva da Abcic (Associação Brasileira da Cons­trução Industrializada de Concreto), Íria Lícia Oliva Doniak, o Brasil está per­feitamente alinhado com a tecnologia disponível no exterior e as normas da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) estão totalmente atualizadas. “No final do ano passado, empresários do setor visitaram fábricas americanas e europeias e constataram que estamos muito próximos do que está sendo feito fora do País, tendo apenas algumas diferenças de concepção estrutural, como em edifícios altos, por exemplo.”
Conforme Doniak, algumas empresas do setor já estão investindo no de­senvolvimento de novas soluções ha­bitacionais, visando diminuir o déficit. “É preciso unir esforços a fim de que as barreiras ainda existentes rumo à inovação e à industrialização sejam demovidas, como a tributação, maior aproximação da academia das empresas, a normalização, o código de obras, entre outras ações.” Considerando a relação custo-benefício e a velocidade na exe­cução, Doniak ressalta que é possível ter um retorno rápido do investimento, sendo necessário para baratear o custo ampliar a escala de produção.
Aço como matéria-prima
Bastante empregadas em países como Austrália, Estados Unidos e Inglaterra, as estruturas em aço são mais leves e tornam viável o uso de solos com baixa capa­cidade de carga, atesta o engenheiro Eduardo Zanotti, diretor executivo do CBCA (Centro Brasileiro da Construção em Aço). Segundo ele, o material pode ser utili­zado em fundações, estruturas, lajes, coberturas, fechamentos e até mesmo em escadas, portas e janelas.
Nessa modalidade, o sistema que tem despertado grande interesse no mercado nacional é o de perfis de aço zincado leves, o LSF (Light Steel Framing), que permitem a construção rápida de residências ou mesmo de prédios de até cinco pavimentos. O esqueleto estru­tural em LSF é composto basicamente por paredes, pisos e cobertura. Nele, são utilizados painéis de madeira OSB (Oriented Strand Board), de gesso acartonado ou chapas de fibrocimento e isolantes, que possuem bom de­sempenho térmico e acústico e dão forma à edificação.
Em dois dias, uma casa
No Brasil, o sistema industrializado mais usado é o pré-moldado de concreto, que inclui aço vergalhão em peças armadas e cordoalhas em peças protendidas. Conforme explica o engenheiro civil Geraldo Antonio Cesta, diretor técnico da Rodobens Negócios Imobiliários, que utiliza o método desde 2007, o primeiro passo para construir a casa industrializada é fazer uma fundação rasa, do tipo radier, de 8cm com uma viga de reforço ao redor de 40cm, como se fosse uma borda. Em cima dela, são montadas formas de plástico ou alumínio recicláveis em que são colocadas as armaduras e os embutidos elétricos e hidráulicos preenchidos com concreto. Depois de 12 horas, a equipe desen­forma os moldes e as paredes da casa estão prontas. Em seguida é feita a montagem de uma estrutura metálica para sustentação da cobertura que leva telha de cerâmica. O processo finaliza com a pintura interna e externa da casa e a instalação do acabamento, como azulejos e pisos. “A madeira, o reboco e os tijolos, responsáveis por cerca de 80% do entulho de uma obra, foram eliminados do processo”, comemora.
Em média, o sistema possibilita à Rodobens executar uma unidade a cada dois dias e até o momento, foram construídas 4 mil industrializadas. “Temos imóveis prontos para famílias com renda de três a dez salários mínimos, mas já estamos trabalhando para atender a faixa de zero a três.”





