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FNE / Jornal / Edição 98 - Jul/10 / Visitas técnicas revelam importância da integração

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Visitas técnicas revelam importância da integração

Soraya Misleh*

Além de contar com exposições e debates sobre desenvolvimento sustentável da região, ponto alto do II Fórum Internacional da Amazônia Sul-americana foram as visitas técnicas a obras gigantescas, como a Transoceânica, entre Brasil e Peru, e as usinas de Jirau e Santo Antonio, no Estado de Rondônia. Caravana com cerca de 80 profissionais, a maioria engenheiros sul-americanos, participou da empreitada, que teve início em 23 de maio e se estendeu até 5 de junho. A iniciativa organizada pela FNE e ONG Engenheiros Solidários cumpriu assim as etapas previstas para alcançar seu objetivo. Na visão do idealizador do fórum, Sebastião Fonseca, presidente da organização não governamental e do Senge-AC, além de diretor regional Norte da federação, superou as expectativas. “O que nós tivemos esses dias foi a reunião de esforços entre países irmãos para se chegar a um denominador comum: temos em nossas mãos a imensurável riqueza da Amazônia que devemos utilizar de forma racional, garantindo que não somente as futuras, mas as atuais gerações possam ter qualidade digna de vida e que a estrada do Pacífico, nessa linha de raciocínio, seja para os povos tradicionais um meio para isso e não apenas um corredor por onde passe a riqueza como se a pobreza não existisse. Nós não podemos ser meros espectadores nesse processo, mas agentes que assumam essa importante e complexa missão.”

Para ele, o fórum traz esse ganho, ao propiciar a vivência dos desafios e soluções em uma megaobra como a Transoceânica, realizada a 4.700 metros de altitude, com condições de relevo e temperatura adversas, bem como o contato com a população e a cultura local. “Foi um ato de grande repercussão”, comemorou. Concordam com ele os dirigentes dos Senges e da FNE que seguiram o trajeto. “Impressionou-nos a velocidade e qualidade do projeto da estrada, que vai permitir integração grande e saída e entrada de serviços e mercadorias do Pacífico para o Brasil”, destacou Antônio Florentino de Souza Filho, presidente do sindicato no Piauí.

A viagem pela Transoceânica teve início em Cusco, no Peru, onde os engenheiros puderam conhecer a engenharia da antiga civilização inca. Antes disso, já haviam percorrido mais de mil quilômetros, tendo passado por destinos como Lima, ponto de partida da aventura, e Mollendo. Nesse local, fizeram a primeira visita técnica, ao Terminal Portuário de Matarani. Ali, participaram de uma reunião com o gerente-geral Erick Hein Dupont, segundo o qual a carga atual deste – administrado pelo Tisur (Terminal Internacional do Sul) – é de 3 milhões de toneladas, devendo chegar a 13 milhões em 2030. O porto entra, assim, no contexto de sustentabilidade da Amazônia sul-americana, através da rodovia Transoceânica, que passa pelo Acre integrando Brasil e Peru e os dois oceanos – Atlântico e Pacífico.
Após a passagem por esse terminal que terá função primordial com a nova rodovia, a caravana seguiu ainda para Arequipa, para abertura oficial da etapa peruana do encontro, no dia 25, que contou com a participação de Murilo Celso de Campos Pinheiro, presidente da FNE, e de Fonseca, além de Anibal Díaz Robles, gerente da Autoridade Regional de Arequipa, e Gustavo Saavedra, presidente da Associação dos Engenheiros do Peru. Este último revelou sua satisfação com a integração com os brasileiros naquele momento. E afirmou a importância da busca de caminhos viáveis que levem ao desenvolvimento dos dois países, ao que a engenharia desempenha papel fundamental. Chamou a atenção de José Ailton Ferreira Pacheco, presidente do Senge-AL, esse esforço. Nessa linha ainda, o vice-presidente do Seesp, João Carlos Gonçalves Bibbo, valorizou a relação com os parceiros. “Tivemos inclusive o convite para participar em outubro próximo de um seminário na Argentina, fazer uma aproximação e levar nosso conhecimento. É uma experiência muito rica.” Depois daquela parada, Saavedra e o engenheiro agrônomo Fernando Dejo Bustios se integraram à caravana.
Dali, esta seguiu em direção a Puno, a 325km de distância e atingindo altitude de 3.400m, em que conheceram a engenharia dos urus, povo que vive às margens do Lago Titikaka em ilhas artificiais flutuantes que constroem com o caule da totora, uma espécie de junco, também usada para a fabricação de barcos.

A Transoceânica

Atravessar os cerca de 780km da Transoceânica a partir do Peru rumo ao Acre foi o próximo ponto da viagem. A estrada, praticamente pronta após três anos de execução e investimentos de US$ 560 milhões, será entregue ao público em dezembro próximo. A obra está sendo finalizada por três empresas do país vizinho e mais a Conirsa, subsidiária que a construtora Odebrecht criou para executá-la. Em meio à visita técnica, o grupo teve acesso a detalhes técnicos em palestra proferida pelo gerente do tramo 3 do empreendimento, engenheiro Biaggio Carollo.

Para Pacheco, a nova estrada impõe ao Brasil agregar valor aos produtos que venham a ser transportados por ali. “Isso é ótimo para o desenvolvimento da Amazônia.” À frente do Senge-AP, Lincolin Silva Américo destacou o papel da engenharia nacional na realização da Transoceânica. “Quase 100% da mão de obra utilizada é brasileira. E muitas vezes houve necessidade de mudanças no projeto e soluções inovadoras in loco.” Bibbo fez coro: “A estrada, muito bem feita, mostrou que temos muito a apresentar ao mundo. Nossa engenharia é de primeiro mundo.” No comando do Senge-MS, Edson Kiyoshi Shimabukuro salientou o uso da tecnologia e pesquisa para o trabalho em condições climáticas e físicas bastante complexas.

Thereza Neumann Santos de Freitas, presidente do Senge-CE, enfatizou os diversos encontros com representantes do setor de outros países sul-americanos. E ainda a oportunidade que representaram as visitas de se observar não apenas a engenharia e técnica utilizadas, mas também sua influência no desenvolvimento local, em especial no caso da Transoceânica. “No primeiro fórum, vimos um Peru devastado, paupérrimo, e agora pudemos ver inclusive que há grandes empreendimentos sendo implementados por conta do consórcio, seja subsidiados por ele, seja por iniciativas espontâneas de investidores que já estão visualizando o que vai ser o produto dessa rodovia para a região.”

Américo também enxerga na engenharia ali representada mudança positiva a comunidades locais que enfrentam grandes dificuldades na Amazônia sul-americana. “Isso prova que vale a pena investir na integração dos povos pela via terrestre.” Para comprovar sua afirmação, ele revelou que a perspectiva é que o PIB (Produto Interno Bruto) do Peru nos próximos dez anos cresça substancialmente. “O Brasil, sobretudo o Acre, também vai ser beneficiado.” Na ótica de Willams Lopes Pereira, presidente do Senge-RR, quando se fala em sustentabilidade, não se pode esquecer do desenvolvimento da população no entorno e da preservação da floresta. “Em relação ao que vimos na nossa visita, esse é um diferencial abrangente.” Luiz Benedito de Lima Neto, presidente do Senge-MT, concluiu: “O que mais me chamou a atenção foi ver a engenharia assumindo de fato e de direito seu papel ao desenvolvimento da região.”

Seringal Cachoeira

Em 31 de maio, a caravana aportou em Brasiléia, no Acre, após percorrer mais de 2 mil quilômetros de extensão. Ali realizou novo encontro da engenharia sul-americana – outro também havia ocorrido no dia 28, com a presença de representantes do Peru, Brasil, Bolívia e Argentina.
A chegada ao Seringal Cachoeira, no município acreano de Xapuri, terra do ativista Chico Mendes – assassinado no final dos anos 80 a mando do fazendeiro Darly Alves –, deu-se em 1º de junho. Ali, os profissionais acompanharam painel que discorreu sobre tema fundamental: meio ambiente. Entre os palestrantes, o ex-deputado federal Marcos Afonso, o líder indígena Joaquim Yawanawá, o presidente do Instituto Peabiru, João Meireles, e o jornalista Antônio Alves. Também participou do debate o peruano Saavedra. Dali, a caravana dirigiu-se a Rio Branco, onde uma série de temas prementes ao desenvolvimento sustentável foram abordados, em uma programação que se estendeu dos dias 2 a 4 do mesmo mês.
Ao final do percurso, no dia 5, a delegação seguiu por mais 550km rumo a Porto Velho, em Rondônia, onde dividiu-se entre visitas a dois empreendimentos gigantescos: as usinas hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau, no Rio Madeira.

* Colaborou Lamlid Nobre

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